1. Quando se aproxima o fim do Ano Litúrgico, a Igreja convida os cristãos a reflectirem sobre o sentido da sua própria vida. Os textos da Palavra de Deus, nestes domingos, desafiam a olhar para mais longe, convidando a reflectir sobre o porquê e o para quê da vida vivida no dia-a-dia. É o Livro do Apocalipse que oferece uma visão lindíssima de Cristo Redentor, ao qual todos se unem para cantar a glória do Cordeiro. Pergunta-se mesmo “quem são os 144 mil assinalados vestidos de branco? São aqueles que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro.” É o anúncio da glória futura de quantos tiveram em Cristo o sentido da sua própria vida. Mas, para atingir este tempo de plenitude, é preciso percorrer um caminho nem sempre fácil. Então, Mateus fala do último juízo quando Cristo Jesus se volta para os eleitos e lhes diz: “Vinde benditos de meu Pai possuir o Reino que vos está preparado. Eu tive fome e deste-me de comer, Eu tive sede e deste-me de beber, Eu estava nu e vestiste-me.” (cf. Mt 25, 34-36). Os justos perguntarão, quando foi que te fizemos tudo isto? Ao que Cristo responderá: “quando o fizeram ao mais pequenino dos irmãos, foi a Mim que o fizeram” (Mt 25, 40). Neste fim de Ano Litúrgico, a Igreja questiona os cristãos sobre o sentido da sua própria vida: o porquê, o como, o para quê.
• Porquê viver. Quando se tem consciência que a vida é um dom de Deus, as palavras e as atitudes terão que estar centradas no projecto de Deus que é um projecto de amor. Então, cada um centra-se no fazer o bem, porque só nele encontra o sentido da própria vida. Renunciando ao egoísmo e ao individualismo serve os irmãos porque é neles que realiza o serviço que Deus lhe pede.
• Como viver. Em cada situação o cristão pauta-se pelos valores do Evangelho, é fiel à verdade, vencendo toda a hipocrisia, pratica a justiça dando a cada um aquilo a que ele tem direito, respeita a liberdade buscando sempre o bem comum e realiza-se no amor, procurando fazer felizes os outros.
• Para quê viver. Em última análise, pode-se dizer que o cristão vive para ser feliz, mas só é feliz de verdade quando procura fazer felizes todos os outros. O cristão não vive para o dinheiro, nem para o poder, nem para a importância, vive sim para tornar Cristo presente no coração do mundo, o que só é possível quando Jesus nascer no coração de todos os homens.
Compreende-se facilmente que Cristo é a referência última, é o Senhor absoluto, é Aquele que dá sentido a toda a vida do cristão. S. Paulo pôde dizê-lo com clareza quando na Carta aos Gálatas afirma: “o meu viver é Cristo” (Gal 2, 20).
2. No mundo actual há imensa gente que perdeu o sentido da vida. Pode dizer-se que muitos entraram num envelhecimento fora de tempo. Aumenta o suicídio de jovens, tantos que não encontraram saída para os inúmeros problemas que iam acumulando na sua vida. São milhares os que perderam o emprego, e não sabem como suportar os encargos de uma família, sentindo estar em causa a própria sobrevivência. Os conflitos sociais desorganizam completamente o normal processo de caminho para os grandes objectivos que se queriam perseguir. Se estes são casos limite, há muitos outros em que simplesmente se acorda sem saber o que fazer e como o fazer ao longo do dia. É a perda de sentido, com pessoas a caminharem na vida sem saberem o que pretendem ou para onde vão. É um envelhecimento precoce. Um dia, João Paulo II entrou pela primeira vez em Paris e perguntou: “França, o que fizeste do teu Baptismo?” hoje, Deus poderia entrar no mundo e perguntar também “Homem ou mulher, o que fizeste da vida que Eu te dei?” Qualquer vida tem dificuldades, mas se se está centrado em Cristo, tudo é possível superar e até a própria morte é vencida. Neste fim do Ano Litúrgico vale a pena parar, avaliar e reorganizar a própria vida, centrando-a no essencial. Para o cristão o fundamental é Cristo Ressuscitado. Com Ele, em qualquer situação, ressuscitamos também.
• A vida tem sempre perdas: não há ninguém que ao longo dos seus dias não perca a saúde, com problemas simples ou com situações complicadas; não há ninguém que actualmente não sofra a crise económica com repetidas perdas de receitas; não há ninguém que não seja surpreendido pela incompreensão de um vizinho ou até de um amigo; não há ninguém que não perca estatuto social ou influência política; não há ninguém que não tenha dúvidas de fé ou até de confiança em Deus.
• A vida tem sempre oportunidades: há um ditado popular que diz que quando se fecha uma porta, se abre sempre uma janela. É preciso então, estar à espreita para descobrir caminhos novos; ter criatividade para saber construir novos projectos; ser persistente para não desanimar nunca. É preciso ter capacidade de aventura e definir objectivos para iniciar uma vida nova.
• A vida exige sempre a esperança: as lágrimas acalmam, mas não resolvem problemas; as queixas permitem desabafos, mas não enfrentam dificuldades; as críticas abrem porta a uma reflexão, mas por si só não ultrapassam as crises; a esperança activa é um desafio indiscutível para recomeçar todos os dias com nova energia, enfrentando dificuldades e acreditando sempre.
Cristo dá sentido à vida porque é modelo em todas as situações. Incompreendido na Samaria, não desistiu de subir a Jerusalém (cf. Lc 9, 51- 53); aclamado às portas da cidade, não deixou de limpar o Templo que não podia ser casa de negócios (cf. Jo 2, 14-16); condenado à cruz no Monte Calvário, não se calou, continuando a prometer o Reino Novo, um Reino de Paz; na sepultura quebrou a pedra tumular e ressuscitou para a vida. Cristo dá mesmo sentido á vida do crente.
3. Podia falar-se do processo de envelhecimento que é um fenómeno que começa no dia em que se nasce. Podia falar-se também no mistério da morte que está garantida a todos os humanos. Preferimos, porém, ficarmos na reflexão pelo sentido da vida, na medida em que, se Cristo for a nossa razão de viver, ninguém envelhece, a “vida não acaba apenas se transforma” e até no último limite poderemos dizer “que alegria quando me disseram vou para a casa do Senhor”.
Hoje fica connosco uma reflexão difícil. É porém essencial que cada um se interrogue sobre o sentido da sua vida e como o prossegue no seu dia-a-dia.
Bom tempo de reflexão.