A TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO – 20 Novembro de 2011

1. Ao terminar o Ano Litúrgico, a Igreja celebra a Festa de Cristo Rei. Foi Pio XI que, depois de ter instituído a Acção Católica como apostolado organizado, quis que os seus dirigentes fizessem um juramento de fidelidade à Igreja na acção de transformar o mundo. Este juramento celebrar-se-ia sempre no dia de Cristo Rei, último domingo de Outubro, dia de início das actividades da Acção Católica. Em 1925 começou a celebrar-se esta festa da realeza de Cristo. É claro que a realeza de Jesus não é deste mundo como Ele próprio disse na resposta a Pilatos que lhe perguntava se Ele era rei (cf. Mt 27,11). Uma coisa é certa, porém, é que os discípulos de Cristo estão no mundo e têm o dever de o transformar. Com muita clareza Bento XVI veio dizer na Caritas in Veritate que “a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer (CV 10) e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos estados (CV 11), mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção, porque não está interessada em identificar valores pelos quais a julgue e a oriente. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia da liberdade. Segundo Bento XVI, o cristão tem responsabilidades na cidade, pelo que, na transformação do mundo, deve seguir sempre a verdade e exercer a sua intervenção com o máximo da caridade.

• O Apostolado dos Leigos é uma exigência na Igreja para o serviço do mundo. Ser Apóstolo não é paradigma exclusivo de padres e religiosos. Os leigos têm uma missão específica na transformação do mundo, porque vivem nele e nele participam para o transformar segundo os valores do Evangelho.

• A organização do lacaido, que foi sentida por Pio XI ao criar a Acção Católica, depois do Concílio Vaticano II tornou-se ainda mais necessária. Só com a participação dos leigos pode chegar ao mundo a acção evangelizadora.

• O compromisso evangelizador faz parte da acção que os leigos realizam em ordem à transformação do mundo. Eles anunciam Jesus Cristo não só pelo testemunho de vida mas também pela intervenção directa nas realidades que ao mundo pertencem.

• A confirmação desta missão é feita pelo Concílio Vaticano II na Constituição Gaudium et Spes, que define claramente as relações da Igreja com o mundo no meio familiar, no ambiente sociopolítico, na gestão económico-social, no mundo da cultura e na construção da paz.

É necessário evitar os espiritualismos desencarnados para que os cristãos mantenham os pés na terra e transformem a cidade dos homens com os valores que recebem da sua relação com Deus.

2. Com o Concílio Vaticano II surgiram muitas outras actividades de Apostolado Laical. Os inúmeros movimentos que adquiriram uma certa expressão na vida da Igreja fecharam-se, porém, numa enorme preocupação pela espiritualidade, descurando, porventura, a responsabilidade na transformação do mundo. O laicado voltou-se para a formação catequética numa tentativa de aprofundar a fé. Também se envolveram muito em grupos de oração, aliás indispensável ao ser cristão. Preocuparam-se ainda com algumas manifestações de caridade no cuidado com os mais pobres. No entanto, parece terem descurado a intervenção nas realidades temporais. Não se esqueça, porém, que o Vaticano II, ao definir a missão do leigo na Igreja, diz expressamente que lhe compete: “tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus para que progrida e glorifique o Criador e Redentor” (LG 31). É indiscutível que o cristão tem de reflectir, tem de estudar, tem de aprofundar a fé. É claro que também lhe é necessária a oração pessoal e a oração comunitária. Além disso, os gestos de partilha no exercício da caridade são de grande beleza. Porém, a missão do leigo é a intervenção no mundo.

• Tratar da ordem temporal é intervir de maneira cristã na vida da família, no mundo socioeconómico, na realidade política, na cultura e na vida profissional. Esta é a missão do leigo na Igreja.

• O progresso e o desenvolvimento são objectivos da intervenção dos cristãos no mundo contemporâneo. O progresso científico e técnico, o desenvolvimento económico-social, a organização da comunidade no campo da saúde, da cultura, do trabalho, são realidades a que o cristão não pode estar alheio.

• Glorificar o Criador e Redentor é síntese de toda a acção que o cristão realiza no coração do mundo. Não há oposição entre o céu e a terra, não há contraditório entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. É exigência cristã servir a Deus também na transformação do mundo.

Talvez possa dizer-se que está por fazer a evangelização do mundo contemporâneo. Ela só é possível com a intervenção organizada dos cristãos. Com razão Bento XVI dizia em Portugal: “Não tenham medo de se dizer cristãos.” Não basta ser homens de boa vontade, há que ser cristão a intervir.

3. A Parábola dos Talentos revela a importância do render a 100%. Certamente que esta parábola contada por Jesus não estaria exclusivamente centrada em actividades de natureza espiritual. Os servos trabalham no campo, os talentos são moeda corrente, a exigência de frutificar é normal no proprietário da terra. A Parábola dos Talentos não fala do problema espiritual, fala da intervenção no coração do mundo. O trabalho a desenvolver então, no apostolado cristão, supõe estabelecer objectivos, definir estratégias, conseguir recursos, alcançar metas e obter resultados. Sem isto não há acção organizada. Nos velhos tempos da Acção Católica, a metodologia era extremamente simples: ver, julgar e agir. Era fundamental conhecer os problemas (ver), estudá-los e avaliá-los à luz do Evangelho (julgar), desenvolver uma acção que transformasse a realidade, renovando-a profundamente (agir).

• Os objectivos da acção são definidos com todo o cuidado perante os problemas que na situação concreta estão a ser vividos.

• As estratégias devem ter em conta a eficácia da acção, pelo que se torna indispensável estabelecer os planos e programas que suportam o trabalho a realizar.

• Os recursos são indispensáveis. Sem as pessoas certas no lugar certo não se consegue um trabalho sério. Mas sem os meios económicos, também se torna quase impossível desenvolver qualquer acção.

• As metas permitem caminhar passo a passo, não querer resolver tudo de uma vez, mas estabelecer um ritmo de caminho que entusiasme e comprometa.

• Os resultados vão surgindo na medida do envolvimento de todos nos projectos comuns.
Com este ritmo os cristãos estão com os pés na terra para poderem intervir ao ponto de tornar a sociedade mais justa, mais humana, mais fraterna.

4. Celebrar a realeza de Cristo é comprometer-se efectivamente na transformação do mundo. Nas assembleias da comunidade paroquial (em cada Eucaristia), estão cristãos de muitas condições, com profissões diferentes, com actividades concretas na cidade. Seremos nós, os cristãos, capazes de mudar o rosto da cidade? É este o desafio que nos é feito em tempo de crise. É este o apelo para transformar as dificuldades em oportunidades. É esta a exigência que é feita a cada um quando se quer assumir até ao fim a verdade do Evangelho. A cidade nova estará na tua casa, no teu lugar de trabalho, no teu grupo de amigos, no teu partido político. Estes espaços estão à tua espera para ali se viverem os valores cristãos necessários para o futuro.

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