CARTA DE ROMA – 27 Novembro de 2011

1. Escrevo-lhes de Roma onde estou a participar na 26ª Conferência Internacional do Vaticano sobre problemas que se referem à saúde. Todos os anos em Novembro se realiza este grande encontro que conta com mais de 70 países cujas conferências episcopais estão envolvidas na Pastoral da Saúde. Foi a partir de 1985, quando João Paulo II instituiu o Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, que estes encontros internacionais se realizam. Muitos professores de medicina, alguns peritos em bioética, grande número de pastoralistas, reúnem-se durante três dias para debater os problemas mais candentes que se vivem no universo da saúde. Faz-se também presente a Organização Mundial de Saúde, assim como estão também presentes alguns líderes das principais confissões religiosas. Este ano, a Conferência Internacional tem uma originalidade: prestar homenagem ao fundador da Pastoral da Saúde na Igreja, João Paulo II, agora proclamado Beato pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI. Para vosso conhecimento, tenho o gosto de comunicar:

• o tema da conferência é “A Pastoral da Saúde ao serviço da vida”; a reflexão de base é “O Evangelho da Vida” (Evangelium Vitae), encíclica em que se denuncia a cultura da morte e se propõe a beleza da vida com maior qualidade possível.

• a delegação portuguesa é constituída por 20 pessoas, entre as quais o Bispo D. Manuel Linda, representando a Conferência Episcopal, o Ministro da Saúde, em nome do governo português, e mais 18 membros vindos do Ministério da Saúde e da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde.

• há dois momentos da maior importância: a 26 somos recebidos pelo Papa, a 24 temos uma recepção na Embaixada de Portugal junto do Vaticano.

• sou moderador de uma das mesas redondas em que fala não só o coordenador português de capelães, como a Soeur Marie Saint-Pierre, miraculada por intercessão do Beato João Paulo II.

É com a maior alegria que aqui em Roma rezo pelos cristãos da Comunidade Paroquial do Campo Grande, quer nos trabalhos, na aula, na sala nova do Sínodo, quer na Basílica de S. Pedro, nos tempos de oração, quer sobretudo na sala Clementina do Palácio Pontifício, onde o Papa nos recebe, tendo-os a todos muito presentes no meu coração.

2. O serviço da vida é o objectivo da Pastoral da Saúde. Deseja-se que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10, 10). Os cristãos são sempre servidores da vida:

• no seu início, não permitindo que a vida seja interrompida por muitas que sejam as dificuldades que a maternidade comporta. Gerar a vida, defender a vida, promover a vida, sempre, é um desafio para os cristãos.

• no seu termo, acompanhando quantos pela doença ou pela idade estão marcados pelo sofrimento e pela solidão. A fase terminal da vida é um tempo privilegiado para o encontro com os irmãos, e até, para a descoberta de Deus que é Pai e ama até ao fim.

• na sua qualidade, sabendo que o valor da vida não está na riqueza, na influência social, na beleza. Para a mais qualidade, os cristãos servem a vida nas suas “relações interpessoais, espirituais e sobrenaturais” (EV 23).

• na prevenção da doença e na educação para a saúde, uma vez que é dever do ser humano evitar comportamentos e consumos que lhe possam ser negativos nas diversas etapas da vida que percorre.

• no cuidado pela vida, porque cada um é responsável pelo seu viver em todos os aspectos que o caracterizam. A saúde não pode ser só física, deve ser psicológica, social, cultural, espiritual e até religiosa. É desta globalidade da vida que urge cuidar.

Podem todos imaginar o trabalho exaustivo que aqui temos em Roma, entre as 9 da manhã e as 7 da tarde. Apenas com um breve tempo para o almoço. Ocupamos o tempo a ouvir grandes lições, mas, depois, nos corredores, partilhamos experiências fantásticas, que nos permitem sentir que a Pastoral da Saúde é essencial nas nossas comunidades.

3. Aqui em Roma não me esqueço que estamos a entrar no Advento. Advento é chegada, é preparação, e é antecipação da festa pela vinda do Salvador. Nestes dias de Roma, visitamos também a Basílica S. João de Latrão, Basílica fundada em 354 como Catedral de Roma e, depois, reconstruída várias vezes através dos séculos. O seu orago é o Salvador. Ora, no Advento, esperamos o Salvador que está a chegar, Jesus Cristo Senhor. Ajoelho aqui em S. João de Latrão, pedindo a Jesus que nos ajude a viver o Natal que se aproxima com a austeridade imposta pela crise, mas também com a esperança que nos vem da certeza da salvação. Na nossa comunidade temos um slogan para este Advento “Natal verdadeiro – Partilha de Afectos”. Depois de chegar a Lisboa explicarei a todos porque escolhemos este tema. Adianto, porém, uma palavra forte: se é certo que muitos esperam da nossa partilha de bens um Natal mais suave e mais belo, é porém a partilha de afectos que abre a porta a um Natal diferente em que todos se amam de verdade.
Queridos amigos, aqui em Roma continuo unido a toda a comunidade Paroquial do Campo Grande. Até domingo, 27.

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