CARTA DE NATAL – 25 Dezembro de 2011

Hoje, ao descer de elevador no meu prédio, cruzei com um casal que, cumprimentando-me disse: “este ano o nosso Natal é de Partilha de Afectos”. Acrescentaram depois que iriam passar a noite de Natal a cuidar dos sem-abrigo, tentando dar-lhes o conforto que a vida a pouco e pouco lhes tirou. Perguntei-lhes se tinham vindo à nossa comunidade paroquial porque era este o nosso slogan “Natal verdadeiro, partilha de afectos”. Responderam-me que não, que era apenas um sentimento de atenção a muitos que este ano têm o Natal mais triste. E, acrescentaram, é urgente partilhar o amor. Com este encontro senti que paira no ar uma onda de solidariedade. As pessoas podem não ter dinheiro para gastar, mas têm um coração que é capaz de se dar a quem sofre, a quem está só, a quem, cheio de dificuldades, luta para viver. O Natal, este ano, é mesmo “partilha de afectos”.

Pergunto-me que coisas simples poderei fazer neste Natal. A resposta é simples também:

• dar os bons dias com votos de Bom Natal, às pessoas com quem cruzo no prédio, no café, na paróquia, gente com quem me encontro e a quem considero não ter tempo para dar atenção.

• sorrir a uma criança, a um velhinho, a um pobre que pede esmola, ou até a alguém que está fechado em si mesmo manifestando um sofrimento que não quer revelar.

• convidar um amigo para tomar um café e conversar um pouco sobretudo se esse amigo está a isolar-se perdendo o convívio que tempos atrás cultivava.

• telefonar a um familiar que não está tão próximo, a um colega de trabalho que se reformou, a alguém que deixámos de ver sem sabermos porquê.

• visitar uma pessoa doente prisioneira de uma cama, de uma cadeira de rodas, de uma cegueira inesperada, de tantos outros limites que a surpreenderam.

• perdoar uma ofensa que com o tempo se foi avolumando e que no princípio era quase ridícula, sabendo que o perdão é a melhor expressão do amor.

• dar algum tempo a quem precisa do nosso tempo, seja um neto, um avô, seja um vizinho, ou um familiar distante, seja um pobre ou alguém importante que caiu em desgraça.

Estas e muitas outras coisas ditadas pelo coração podem transformar este tempo em “Natal de afectos” onde o que se partilha é o dom mais precioso, a capacidade de amar.

O Natal é cantado por todos os artistas, seja nas telas dos pintores e na melodia dos compositores, seja na prosa dos escritores ou nas rimas dos poetas. Nestes dias de Natal não tenho nem quadros de Rafaello, nem oratórias de Haendel para oferecer a toda a nossa comunidade. Limito-me por isso a transcrever, na íntegra, um poema de Miguel Trigueiros que já no ano passado referi e que é um desafio para o “Natal de Afectos”:

Natal na Dor

“Frei Vagabundo
Saiu do claustro do silêncio
Estendeu humildemente as mãos cheias de gritos.
Frei Vagabundo,
Humano pó da estrada
Quantas vezes te insultam numa esmola,
A côdea que te lançam na sacola
É uma pedra ao teu rosto arremessada
E então, no pergaminho do teu rosto
Logo a história da vida se resume
Cada ruga, uma frase de queixume
Cada olhar, um lampejo de sol posto.
Ai a caridade feita de exterior,
Muito solene, muito silabada,
Muito bem pesada
Muito dentro do orçamento
Como se houvesse racionamento de amor
Ai a caridade feita de encomenda
Com escrituração de compra e venda
A caridade com a pedra no sapato
A caridade muito bem conservadinha
Como a velha que tinha um gato,
E debaixo da cama o tinha.
Frei Vagabundo
Saiu do claustro da solidão
E fez da mão estendida
Uma bandeja vazia.
Que fria a Noite de Natal
Há neve pelo chão
Mas há mais neve na alma
E a dor ainda é mais fria.”

É com esta fórmula, desafio para um Natal de Afectos que desejo a todos os paroquianos do Campo Grande um Natal de alegria e de paz.

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