EDUCAR PARA A JUSTIÇA E PARA A PAZ – 1 de Janeiro de 2012

1. Foi Paulo VI que em 1968 instituiu o Dia Mundial da Paz, a ser celebrado todos os anos no primeiro de Janeiro. Na década de 60 ainda se respiravam as consequências dos horrores da II Guerra Mundial. A tensão entre o Oriente e o Ocidente na Europa era violenta. Discutia-se em todo o mundo a questão das descolonizações. E até os jovens em revolta procuravam novos sistemas políticos (no Maio de 68). Construir a paz era uma urgência. Paulo VI, preocupado com o desenvolvimento dos povos, sabia que este não era possível sem um clima de paz alicerçado na justiça. Por isso instituiu a Jornada Mundial da Paz. Em cada ano foi proposto um tema diferente. Desde então, até hoje, as relações propostas constituem um puzzle maravilhoso. Ressaltam-se temas como “todo o homem é meu irmão”, ou “o novo nome da paz é desenvolvimento”, ou “a justiça é o caminho da paz”. Bento XVI continua a celebrar o Dia Mundial da Paz. Propõe-nos para 2012 um tema com grande dinamismo: Educar os jovens para a justiça e para a paz. Este título traz 4 desafios:

• educar – a educação consiste na formação integral da pessoa humana. Assim sendo, no processo educativo não se pode esquecer o outro, a quem urge sempre respeitar, como não pode esquecer-se também a comunidade humana que deve viver sempre em harmonia. Responsáveis pela educação são, diz o Papa, as famílias, as escolas, a comunicação social, os agentes políticos. Serão estes capazes de educar para a justiça e para a paz?

• os jovens – no processo educativo o Papa privilegia os mais novos. Se é certo que qualquer cidadão tem que ter o sentido da justiça e da paz, os jovens são, porém, a garantia do futuro e já uma presença viva de intervenção na cidade. Eles têm que aprender a praticar a justiça para construírem uma paz verdadeira num mundo melhor.

• a justiça – perante as atrocidades da II Guerra Mundial a humanidade sentiu a urgência de pautar os caminhos da justiça. Por isso, proclamou, em 48, a Carta das Nações, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E em que consiste a justiça? Em dar a cada um aquilo a que ele tem direito. Só conhecendo e vivendo os direitos humanos se pratica a justiça.

• a paz – o conceito de Cícero “si vis pacem, para bellum” (se queres a paz, prepara a guerra) foi superado por Tomás de Aquino, que define a paz como a tranquilidade na ordem. Com o decorrer dos tempos estes conceitos são quase incompreensíveis, porque a paz verdadeira só se alicerça na justiça. É na medida em que cada um se sente feliz no respeito pela sua dignidade e na relação que tem com os outros, que na sociedade se constitui a harmonia.

Vale a pena ler toda a mensagem de Bento XVI. As sínteses são sempre pobres e a riqueza da reflexão do Santo Padre leva cada um a querer construir a paz, seja nos seus ambientes, seja no seu país, seja no mundo inteiro. É importante rezar pela paz, mas mais importante ainda é promover a paz.

2. A paz só é possível na justiça. Dentro deste princípio compreende-se que muitos podem estar aparentemente tranquilos mas não vivem a paz simplesmente porque estão marcados pelo medo, pela opressão, pela quase violência social. Não há guerras, mas há tantas vezes o imenso sofrimento humano. É nestas condições que se compreende o direito à crítica, às manifestações populares, às reivindicações generalizadas, uma ou outra vez até à revolução. Nos últimos Papas tem-se encontrado por vezes esta porta aberta para a liberdade que se torna imperiosa para viver a justiça. No Dia Mundial da Paz de 2012 a Europa sofre uma crise violenta. Daí resulta o enorme sofrimento, surgem novos pobres, há pessoas que se sentem marginalizadas, há grupos humanos a quem é recusada a cidadania activa. Multiplicam-se situações de desemprego, de salários baixos, de despromoção da vida profissional. Perante tudo isto justifica-se a posição dos Bispos portugueses em documento recente. “Crise, discernimento, compromisso”, oferecido aos portugueses pela Conferência Episcopal, é texto que não se pode ignorar. Quatro aspectos têm que ser garantidos na sociedade em que vivemos: a dignidade humana, o bem comum, a subsidiariedade, a solidariedade.

• A dignidade humana – respeitar a dignidade de cada um é elemento indispensável para a construção da paz. Não pode acontecer com as exigências de uma austeridade necessária que se comprometa a dignidade de quem quer. Viver em situação de miséria é indiscutivelmente contra a dignidade humana. É dentro deste contexto que toda a reforma sociopolítica tem que ter como prioridade a pessoa humana para a sua dignidade.

• O bem comum – uma das características das relações humanas é hoje, infelizmente, centrada no interesse pessoal ou de grupo. Isto contraria o bem comum. É verdade que são muito mais as coisas que nos unem do que aquelas que nos separam mas, para além disso, procurar o que é melhor para todos é um desafio feito a todos os responsáveis sociais. Servir o bem comum supera os egoísmos, de classe, de partido, de religião. A procura do bem comum é o maior desafio feito hoje ao futuro que se está a construir.

• A subsidiariedade – no mundo de hoje multiplicam-se os problemas, as dificuldades são muitas, as soluções são difíceis. A tentação está em responsabilizar por tudo os que têm maior poder. Ora há pequenas coisas que podem ser resolvidas na base, às vezes com a simples boa vontade das pessoas. É nisto que consiste a subsidiariedade, tentar cada um ao seu nível, descobrir as soluções mais fáceis sem responsabilizar outros com esquemas mais ou menos complicados.

• A solidariedade – nunca se falou tanto de solidariedade como hoje. Mas as pessoas serão mesmo solidárias? Ser solidário é fazer seu o problema do outro independentemente de ele ser meu conhecido ou não. A solidariedade reclama uma gratuidade total para ajudar todo aquele que, próximo, precisa de um apoio concreto. A solidariedade imediata é a mais difícil, mas talvez a mais necessária.

Nesta reflexão dos Bispos sobre o compromisso cristão, valeria a pena sublinhar o elemento que é próprio da doutrina social da Igreja: o destino universal dos bens da terra. Tenha cada um muito ou pouco, os seus bens não lhe pertencem exclusivamente e é por isso que deve constantemente pô-los ao serviço do bem comum. Esta missão envolve tudo o que se tem de supérfluo e dá sentido à generosidade de cada um.

3. O Dia Mundial da Paz deve ter também repercussões na nossa Comunidade Paroquial do Campo Grande. Permitimo-nos indicar três vertentes que são essenciais à relação entre todos:

• O acolhimento de todos os que nos procuram – esta é a forma mais bela de amor ao próximo. Quem chega é o mais importante. Quem está é apenas servidor. O que o outro precisa é o desafio para a criatividade de cada um.

• A competência – no lugar onde cada um trabalha ninguém pode substituí-lo, a sua acção é absolutamente original. Ninguém pode substituir-me, por isso cada um tem que ser exigente consigo próprio, seja na acção profética, seja no trabalho social, seja na celebração litúrgica, o que cada um faz tem que ser feito na perfeição, porque o faz para os outros e os outros têm todos os direitos.

• A reconciliação – é normal que no dia-a-dia aconteçam dificuldades de opinião, de interpretação, de serviço. É nestas horas que vale a pena reler o Pai-Nosso: “perdoai-nos Senhor como nós perdoamos”. Reconstruir permanentemente a comunhão e a unidade é uma forma privilegiada de celebrar a paz.

• A oração – a relação com Deus tem que ser muito mais do que uma súplica. Se Jesus disse “onde estão dois reunidos em meu nome eu estou lá no meio deles”, então, esta presença de Jesus obriga a uma doação incondicional aos outros que estão connosco. A oração tem compromisso social.

Está a começar um novo ano. Que 2012 seja, para todos, ano de justiça e de paz.

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