V DOMINGO DO TEMPO COMUM – 05 de Fevereiro de 2011

“RETIROU-SE PARA UM SITIO ERMO E AÍ COMEÇOU A ORAR.”

                                                                                  (Mc 1, 35)

I LEITURA – Job 7, 1-4.6-7

«Recebi em herança meses de desilusão e couberam-me em sorte noites de amargura. Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro »

Leitura do Livro de Job
Job tomou a palavra, dizendo: «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário? Como o escravo que suspira pela sombra e o trabalhador que espera pelo seu salário, assim eu recebi em herança meses de desilusão e couberam-me em sorte noites de amargura. Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’. Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’; e agito-me angustiado até ao crepúsculo. Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. – Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».
Palavra do Senhor.

SALMO -146 (147), 1-2.3-4.5-6 (R. cf. 3a ou Aleluia)

 Refrão: Louvai o Senhor, que salva os corações atribulados. Repete-se

Ou: Aleluia. Repete-se

Louvai o Senhor, porque é bom cantar,
é agradável e justo celebrar o seu louvor.
O Senhor edificou Jerusalém,
congregou os dispersos de Israel. Refrão

Sarou os corações dilacerados
e ligou as suas feridas.
Fixou o número das estrelas
e deu a cada uma o seu nome. Refrão

Grande é o nosso Deus e todo-poderoso,
é sem limites a sua sabedoria.
O Senhor conforta os humildes
e abate os ímpios até ao chão. Refrão

II LEITURA – I Cor 9, 16-19.22-23

 «Ai de mim se não evangelizar!»

Leitura da Primeira Epístola do Apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o fizesse por minha iniciativa, teria direito a recompensa. Mas, como não o faço por minha iniciativa, desempenho apenas um cargo que me está confiado. Em que consiste, então, a minha recompensa? Em anunciar gratuitamente o Evangelho, sem fazer valer os direitos que o Evangelho me confere. Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens.
Palavra do Senhor.

EVANGELHO – Mc 1, 29-39

Jesus quer levar a Boa Nova a toda a parte e esta sua acção é acompanhada de gestos concretos; no entanto .  perante as manifestações do povo, por esse Seu poder messiânico, procura um lugar ermo para aí orar ao Pai.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.
Palavra da salvação.

ACÇÃO E CONTEMPLAÇÃO, SÍNTESE DA VIDA CRISTÃ

Há muitos que se interrogam sobre o que é ser cristão. Será que o essencial está em repetir muitas orações, frequentar muitas liturgias, e ter tempo de silêncio contemplativo? Ou ser cristão está muito mais numa acção constante para, em toda a parte, poder anunciar o Evangelho? A liturgia de hoje procura dar resposta a esta interrrogação, apresentando a vida de Jesus, modelo da vida cristã, como uma síntese da acção e da contemplação. Se a vida do cristão está na comunhão total com Deus e com os irmãos, então, o suporte da acção está sem dúvida na oração, na relação com Deus. Mas o testemunho da relação com Deus está certamente no evangelizar, isto é, numa acção pastoral que a todos revele o Evangelho da Caridade. O cruzamento da vida activa com a vida contemplativa constitui, sem dúvida, o essencial da vida cristã. No Livro de Job está o retrato da natureza humana. Job reconhece-se como um soldado, um mercenário, ou um servo, figuras secundárias na construção do mundo. A sua confiança em Deus está posta à prova. É a história da natureza humana (1ª leitura). Jesus repartiu a sua vida pública pela acção e contemplação. Em Cafarnaum, multiplicou as curas mas depois foi para um lugar deserto para dialogar com o Pai (Evangelho). Paulo sente a necessidade da oração, mas acaba por confessar: “Ai de mim se eu não evangelizar” (2ª leitura). A liturgia deste domingo acaba por afirmar que a verdadeira vida cristã tem tempos fortes de oração, mas tem também a responsabilidade da acção, numa evangelização eficaz.

1. A natureza humana
Quem conhece o Antigo Testamento, sabe que o Livro de Job conta uma história, a vida de um homem que vai conquistando tudo, bens, influências, poder social, com uma família extraordinária, campos muito férteis e numerosos amigos. A certa altura, começa a perder tudo. Morrem-lhe a mulher e os filhos, as tempestades e as secas destroem-lhe os campos e os amigos abandonam-no. É nesta altura que ele faz um lamento que é a descrição do seu infortúnio: “A vida não passa de um sopro e os meus olhos não mais verão a felicidade” (Job 7, 7). Nos limites da natureza humana, porém, mantém a sua fé em Deus. Aos amigos que o condenam poderá dizer “eu sei que o meu Redentor vive e encontrar-me-ei com Ele face a face” (cf Job 19, 23-27).

2. A vida activa e contemplativa de Jesus
A vida pública de Jesus, quer na Galileia, quer na Judeia, está marcada constantemente pela acção e a contemplação. Seguem-n’O multidões à espera de milagres. A todos anuncia a Boa Nova do Reino, congrega discípulos continuadores da sua missão. Interpela, exige, dá esperança. A par desta actividade intensa, com frequência se isola em lugares desertos para ali falar com o Pai. Aliás a sua vida pública começa com 40 dias de retiro no deserto e termina com momentos de oração intensa no Horto das Oliveiras. Até no momento da crucifixão Ele fala com o Pai e, simultâneamente, orienta João como discípulo para a grande aventura do Reino. A vida de Jesus é um misto constante de acção e contemplação.

3. A missão de evangelizar
Quem se alimenta na relação pessoal com Jesus não pode deixar de O anunciar a todos os povos. É esta a mensagem de Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios. Ele sabe que vale pouco, mas que a sua força lhe vem do Senhor. Então dialoga com Ele em momentos fortes de oração e, ali, reconhece que não pode deixar de evangelizar: “Ai de mim se eu não evangelizar” (1 Cor 9, 16). Paulo entrega a sua vida toda ao anúncio do Evangelho porque entregou a inteligência e a vontade a Jesus Ressuscitado que lhe apareceu na estrada de Damasco. A oração e a contemplação, no mesmo projecto de vida, são a razão de todo o seu viver.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto (in Revista Liturgia Diária, ed. Paulus)

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