1. No Ano Europeu do Envelhecimento Activo há uma preocupação maior pelas pessoas de idade. A sua grande angústia, porém, está no problema da solidão. Os noticiários referiam há poucos dias terem morrido completamente abandonados em 2011, 2835 pessoas de idade. Morreram completamente sozinhos e alguns deles vários dias abandonados em casa. Compreende-se a mensagem de Jesus quando, ao referir o encontro no fim dos tempos, tenha dito “vinde benditos de meu Pai, possuir o Reino que vos está preparado, porque tive fome e me destes de comer (…) estava doente e me visitastes” (Mt 25, 34-35). O problema da solidão é de tal maneira desafiante para os cristãos que recentemente dois Bispos portugueses, de Lamego e de Bragança, colocaram no seu programa pastoral como prioridade a visita aos enfermos. Ir ao encontro daqueles que por idade ou por doença estão sós, sendo um acto de misericórdia, é sobretudo uma expressão de amor. Na visita, de múltiplas formas, se torna presente Jesus Cristo Salvador.
• O doente é para o cristão, a presença viva de Jesus. Foi o Senhor que o disse expressamente: “O que fizeste ao mais pequenino dos teus irmãos foi a mim que o fizeste” (Mt 25, 40). Enfermo, isto é, sem firmeza, a pessoa doente não pode ficar só. Visitá-lo é maravilhoso acto de amor.
• O encontro que a visita proporciona entre o doente e o seu amigo que lhe faz companhia, tem uma dimensão espiritual profunda, porque “onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou lá no meio deles” (Mt 18, 20).
• A oração que entretanto se proporciona constitui mais do que uma súplica, a certeza de que Jesus vem em auxílio daqueles que o procuram. “Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos, Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Orar, permite àquele que sofre uma aproximação extraordinária a Deus que salva: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4, 13).
• A comunhão, se o coração está preparado, constitui uma terapia insubstituível para o cristão em sofrimento. No silêncio da acção de graças desce sobre o enfermo a paz que dá a vida.
A visita aos doentes, o cuidado com os mais velhos, o acompanhamento dos que sofrem mais, são atitudes essenciais para os cristãos comprometidos. Ninguém pode estar só no tempo do sofrimento. Aparecer, ficar, fazer companhia, rezar, ser portador da comunhão da mesma maneira como se dá o apoio médico e medicamentoso, tudo isto constitui um trabalho pastoral extraordinário no campo da saúde. Nestes dias celebra-se o Dia Mundial do Doente. Visitar os doentes de uma maneira organizada é um dom maravilhoso para qualquer comunidade paroquial.
2. Bento XVI, na sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, tem uma expressão que vai ao encontro das últimas investigações científicas. A ciência médica passou a considerar que a espiritualidade tem uma dimensão terapêutica. Em inúmeras universidades se fazem estudos, com teses de doutoramento, sobre a importância da espiritualidade no cuidado a ter com os enfermos. Correspondendo a esta investigação e à nova prática médica, Bento XVI chama a alguns Sacramentos, que os doentes celebram, Sacramentos de Cura. Durante séculos considerou-se que a Unção dos Doentes era um dos últimos sacramentos, preparação para a morte. O Papa afirma que a Santa Unção, ou Unção dos Doentes é um Sacramento para curar o corpo e a alma de toda e qualquer enfermidade. Aos Sacramentos de cura acrescenta-se também a Reconciliação e a Eucaristia. São estes os três grandes sacramentos que a Igreja oferece aos doentes para recuperarem a saúde e regressarem à sua vida habitual. Se se olhar para cada um destes sacramentos compreende-se como eles proporcionam uma força anímica regeneradora da pessoa humana no seu todo.
• O Sacramento da Reconciliação é um dom de natureza espiritual de extraordinária riqueza. Todos os seres humanos andam muitas vezes atormentados por “demónios”, aquelas situações de vida em que a consciência pede a regeneração. A certeza do perdão incondicional de Deus transmite a tranquilidade e a paz que são o princípio da cura que se deseja. O estado de graça constitui colaboração indiscutível na recuperação integral da pessoa humana.
• O Sacramento da Unção dos Doentes constitui uma especial graça de regeneração total do ser humano. Quando se adoece é todo o ser que fica doente, o corpo, o espírito, em todas as suas relações, profissionais, familiares e sociais. A cura tem que ser total. A beleza do Sacramento da Unção, está exactamente nesta globalidade da acção de Deus pela imposição das mãos, com o dom do Espírito e a unção com o óleo dos enfermos. Se o sacramento contém, por natureza, a cura espiritual, contribui também para a cura física pela pré-disposição da pessoa, para superar a dificuldade que o afectou. Por isso a última oração diz assim: “restitui-lhe, por piedade, a plena saúde interior e exterior, para que, restabelecido graças à vossa misericórdia, retome as anteriores ocupações”.
• O Sacramento da Eucaristia é sempre fonte de vida. Quem comunga, participa no banquete da alegria pascal de Cristo. Por isso mesmo poder comungar quando se está doente tem dimensão terapêutica. A serenidade e a paz que se adquire fortalecem o espírito para superar as dificuldades que acontecem. Por vezes, até pode celebrar-se a Eucaristia à cabeceira do doente. A partilha da Palavra e o repartir do pão dão força para todos os caminhos. Daí que ao participar do Pão da Vida, o doente readquire a força para vencer toda a ansiedade. É este respirar do amor de Deus que faz o doente encontrar na dificuldade o sentido da própria vida.
Bento XVI, com a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, faz um desafio à Pastoral da Saúde para um trabalho constante junto dos que mais sofrem, os idosos, os doentes, os deficientes. A participação nos Sacramentos de Cura traz consigo extraordinárias razões de esperança. Pode até dizer-se que a Pastoral da Saúde adquire agora fortes características de Nova Evangelização.
3. Neste fim-de-semana estamos na Comunidade Paroquial a viver o Dia Mundial do Doente. São mais de 100 os doentes a quem vamos oferecer o Sacramento da Unção, como processo de Cura. É uma alegria muito grande para toda a comunidade a ternura que os cristãos têm pelos seus irmãos doentes.
A semana que vai findar tem sido também para mim uma experiência da debilidade humana. Uma leve gripe obrigou-me a ficar em casa. Foi tempo para fazer outras coisas, mas sobretudo para me solidarizar com os doentes da Comunidade Paroquial a quem iremos visitar durante a próxima semana levando-lhes o conforto da amizade, mas sobretudo, para os que o querem, lhes proporcionar os Sacramentos de Cura.