OS DIAS DE CARNAVAL – 19 Fevereiro de 2012

1. Antes de entrar na Quaresma celebram-se alguns dias de alegria a que se chamou o Carnaval. A Quaresma é um tempo de austeridade que a Igreja consagrou com o jejum e a abstinência, com um tempo de súplica pelo perdão dos pecados, e de penitência redobrada por tudo que, ao longo da vida, não esteve bem. Assim, com estas expressões de recolhimento se vai preparar a Páscoa, a Ressurreição do Senhor. Numa velha tradição, antes de entrar no jejum quaresmal, a própria Igreja propõe um tempo de alegria colectiva. Por isso, a estes dias se chama Carnaval, isto é, “Carne Vale” (do latim, que quer dizer, adeus à carne). Este tempo de alegria colectiva precedia os dias de austeridade na alimentação e nos comportamentos. Sem ser um tempo religioso o Carnaval prepara para o tempo austero da Quaresma. De muitas maneiras se foram celebrando estes dias. É fácil recordar o Carnaval nas diversas etapas da vida.

• As crianças vestem fantasias e pelas mãos dos mais velhos passeiam de festa em festa. São as columbinas e os arlequins, são os Ratos Mickeys e as Minnies, são os Homens-Aranha e os Super-Homens…

• Os adolescentes entretêm-se a pregar partidas com as serpentinas a voarem pelos ares, as bombas de cheiro a incomodarem toda a gente, os bonecos-surpresa que assustam os mais velhos…

• Os jovens têm já os seus programas como os bailes de máscaras, as noites nas discotecas, os passeios pela praia com as pessoas que mais apreciam…

• Os adultos raras vezes se entretêm com os jogos que consideram disparate. Alguns aproveitam para descansar, outros para porem em dia coisas em atraso, uns poucos para fazerem uma viagem há muito desejada…

• Há quem aproveite para uns dias de oração num mosteiro, ou para um tempo de retiro numa casa especialmente preparada para a reflexão cristã…

Cada um tem a sua maneira de viver o Carnaval, tornando-o num valor positivo para o tempo exigente que a Quaresma reclama. Com feriado ou sem feriado, o sentido do Carnaval é importante para os cristãos como expressão de um tempo de alegria que melhor predispõe o coração para a longa caminhada da Quaresma.

2. O Carnaval teve uma origem cristã embora não religiosa. Tornou-se no último século um tempo de diversão popular, eventualmente marcado por grandes desmandos. Três notas críticas podem apontar-se ao Carnaval que por aí há:

• O culto da permissividade – criou-se a ideia de que “no Carnaval ninguém leva a mal”, ou “no Carnaval tudo vale”. É o culto de uma certa aceitação de tudo o que é ilícito, abrindo a porta a desvarios que comprometem a vida.

• A prioridade ao económico – para atrair multidões às festas carnavalescas, os carros alegóricos contêm sátiras que exageram no julgamento dos outros. Os artistas convidados preocupam-se mais por provocar com os seus gestos ou as suas poses do que em transmitir uma alegria sã, uma alegria verdadeira. Os slogans são muitas vezes de extrema violência.

• O consumo de produtos lícitos ou ilícitos – o álcool, a droga, e tantos outros produtos geram o descontrole das pessoas que acabam muitas vezes nas urgências dos hospitais. Quem não recorda o filme “Orfeu Negro” que faz uma crítica extraordinária ao Carnaval do Rio.

O Carnaval actual, na nossa sociedade, tornou-se o retrato do mundo, não tanto pelas críticas que sugere, mas pela proposta de uma falsa alegria, mais assente na procura da gargalhada do que na beleza de um coração feliz. Com razão, o “Orfeu Negro” terminava a sua canção sobre a felicidade em tempo de Carnaval com um grito de tristeza “e tudo se acabar na quarta-feira”. O Carnaval no mundo de hoje não é mais preparação para a Quaresma.

3. É um desafio dar ao Carnaval uma dimensão cristã. Em Bolonha, no Norte de Itália, na década de 60 do século passado, o Cardeal Lercaro recriou o Carnaval da cidade. Os carros alegóricos continham extraordinárias mensagens bíblicas, os dísticos convidavam ao sorriso, as propostas envolviam os jovens com sonhos de amor e com a ternura que desejavam dar aos mais velhos. Ficou célebre em toda a Itália o Carnaval de Bolonha. Podia ser um tempo de criatividade para a verdadeira alegria nas comunidades cristãs. Não sei se o estilo das igrejas tem capacidade para ensinar a rir. Resta aos cristãos garantir um Carnaval diferente:

• Tempo para estar com os amigos, sobretudo quando as dificuldades do tempo presente afastam as pessoas e as deixam cada vez mais sós.

• Tempo para restaurar forças, quando as inúmeras tensões duma sociedade em crise torna os corações aflitos e os corpos vencidos por inúmeras enfermidades que dificilmente se entendem.

• Tempo para dialogar com Deus, na oração suplementar que estes dias permitem a partir do silêncio que a pouco e pouco se foi conseguindo.

• Tempo livre para não fazer nada, para deixar-se conduzir nas asas do sonho, para sentir a brisa da manhã que refresca e tonifica, para escutar a voz do silêncio que renova sem preço, para cada um se recriar como pessoa única que quer ser feliz.

Um programa de Carnaval não se impõe a ninguém. Cada um, porém, tem obrigação de descobrir a melhor forma de viver estes dias com alegria e paz na preparação para a Quaresma que se aproxima. Quanto menos barulho, mais esta alegria e paz podem visitar o coração do homem atribulado. No centro dos dias de Carnaval, para o cristão, está sempre a Pessoa de Jesus Cristo.

Na nossa comunidade cristã do Campo Grande não há quaisquer programas para estes dias, deixa-se a cada um escolher o seu próprio caminho. A todos esperamos na Quarta-Feira de Cinzas para aceitarmos a mensagem que a Igreja nos faz: “Arrependei-vos, acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).

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