A EXPERIÊNCIA VITAL DE DEUS – 11 de Março de 2012

1. Os cristãos perguntam-se muitas vezes qual a melhor forma de rezar. O Evangelho de S. Mateus responde de uma maneira extraordinária: Quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai; não digas muitas palavras, porque o Pai sabe muito bem aquilo de que tu precisas antes de lho pedires (cf. Mt 6, 5-8). Todos sabem que a oração é um encontro com Deus, é um diálogo de amor. É preciso, porém, descobrir que a oração é sobretudo a experiência vital de Deus. Ao longo da Sagrada Escritura, a oração mais verdadeira referiu sempre a comunhão total com Deus que dá sentido à própria vida.

• A originalidade de Moisés – Moisés sentiu a necessidade de construir a “Tenda do Encontro”, fora do acampamento, como única oportunidade de falar com Deus como um amigo fala a seu amigo. À experiência do Sinai sucedeu a experiência da “Tenda do Encontro”(cf. Ex 33, 7-11).

• O cansaço de Elias – o profeta estava saturado com o desprezo dos seus concidadãos. Sentou-se à sombra de um junípero e desistiu de profetizar. Deus chama-o, pede-lhe para comer e restaurar forças, porque era longo o caminho que tinha que percorrer. Andou 40 dias e 40 noites até ao Monte Horeb. Na sua dificuldade fez a experiência de Deus (cf. 1 Reis).

• O sofrimento de Ana – na esterilidade, ignomínia para qualquer mulher na cultura do seu tempo, Ana sentou-se no Templo em oração de intimidade. O Sumo Sacerdote, Eli, julgou que estava embriagada. Ana respondeu que apenas queria ter um filho. Deus escutou-a e nasceu Samuel (cf. 1 Sam 1, 20).

• O arrependimento de David – o grande rei de Israel também era pecador. Advertido pelo profeta Natan, reconheceu o seu erro. Fez a experiência do perdão de Deus e soube pedir a Deus perdão (cf. Sl 50).

• A lição dos profetas – todos os que falavam em nome de Deus começavam por escutar a voz de quem lhe pedia para profetizar. Vivendo a experiência de Deus, a sua fidelidade à Palavra poderia ter um alto preço, mas era a razão de viver.

• A austeridade de João Baptista – a missão do precursor não era fácil. Então, refugiou-se no deserto, numa vida cheia de privações para poder anunciar que o Reino de Deus estava próximo. A experiência de Deus permitiu-lhe dizer de Jesus, “eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

• Os silêncios de Jesus – o Filho do Homem tinha vindo para salvar. Sentiu necessidade de se encontrar com o Pai. Desde o deserto aos lugares altos onde se refugiava pela noite, até ao Horto da Agonia, a sua experiência de Deus foi mistério de comunhão sem fronteiras: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Todos os discípulos de Jesus vão compreendendo que a oração mais verdadeira não está nas grandes celebrações rituais. É, antes, vivida na experiência vital de Deus, experiência esta que só é completa quando celebrada no silêncio de amor em que se fala com Deus como um amigo fala a seu amigo.

2. Oportunidade para viver a experiência vital de Deus. Há muitos que reduzem a sua oração à leitura de livros. Outros fazem oração com o que os grandes Santos escreveram. Outros, ainda, consideram-se contentes porque a sua oração consiste na participação das grandes liturgias ou nas peregrinações a santuários, ou ainda nas procissões em dias de festa. Desde que se seja capaz de fazer silêncio, há inúmeras oportunidades para viver a oração como experiência vital de Deus. É tempo de contemplação.

• A beleza de uma flor – Inácio de Loyola, no final da vida, ao passear no jardim batia com a bengala nas flores e dizia: não me falem mais das maravilhas de Deus. A natureza permite uma experiência vital de Deus.

• O sorriso das crianças – é frequente os pais ou os avós ficarem em êxtase perante a beleza de uma criança pequenina. O seu olhar, o seu sorriso, falam maravilhosamente da ternura de Deus.

• As rugas de um velho – o rosto de uma pessoa de idade tem traços bem vincados. Como diz o poeta, nestas linhas do rosto, “logo a história da vida se resume/ cada ruga é uma frase de queixume/ cada olhar um lampejo de sol posto/ na expressão de uma pessoa de idade” (Miguel Trigueiros). Também ali se contempla o mistério de Deus que faz história.

• A angústia de um enfermo – no olhar assustado de um doente, na presença amiga de um voluntário, no murmúrio simples de uma oração, todos podem descobrir a esperança num Deus que salva. Depois do tempo de prece no silêncio, com o mexer de lábios, renasce a força espiritual reveladora de uma experiência viva de Deus.

• Tantas outras situações – a força e a coragem de um jovem, o amor e a ternura de um casal, a energia de um trabalhador, tudo isto “lido no coração” se pode tornar uma experiência do Deus que está em tudo e em todas as coisas.

Todos os acontecimentos são reveladores da passagem de Deus no mundo. O segredo do crente está em saber discernir quanto essa passagem de Deus é salvífica, desafiando a uma vida que se renova no amor a Deus e aos irmãos.

3. Há lugares privilegiados desta experiência de Deus. Se o Evangelho fala no segredo do quarto, podem descobrir-se muitos outros lugares onde Deus, à sua maneira, vem falar-nos.

• No alto de um monte – dali, de onde se vêem tantas coisas, é fácil contemplar as maravilhas de Deus. Era no alto dos montes que Jesus se refugiava para falar com o Pai, depois de ter deixado as multidões.

• A brisa da tarde – quem lê a história dos profetas sabe que Deus não vem na violência do fogo, nem no fragor dos ventos. Deus desce até nós na brisa da tarde. Ao passear-se à tarde numa floresta, a brisa suave permite também a contemplação de Deus.

• O murmúrio do mar – depois de vencida a tempestade pelo gesto de Jesus, os discípulos puderam chegar serenamente até à margem do lago. Há quem passeie de manhã cedo à beira-mar sentindo que Deus está presente no barulho das ondas e na vastidão do oceano a perder de vista.

• Também a música fala de Deus – escutar uma peça de que se goste, seja suave ou mais interpelativa, da harmonia dos sons à sua beleza, tudo é também revelação de Deus.

• Uma tela – com pintura de sabor espiritual, também anuncia o Deus que ama. Pode recordar-se o “Filho Pródigo” saído dos pincéis de Rembrandt. Parar diante da beleza de uma pintura abre a porta à contemplação do Deus presente.

Estes e muitos outros lugares são oportunidade para maravilhosos diálogos com Deus, com Quem, na oração, se faz uma experiência de vida.

4. Há muitas formas de oração; porém, a mais importante é a do encontro pessoal com Deus que fundamenta uma experiência que oferece serenidade e paz. Depois de uma oração pessoal conseguida, todas as outras formas são fáceis, porque são apenas expressões do diálogo que com Deus se quer travar.
Nesta Quaresma, dê cada um tempo à oração pessoal.

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