O SENTIDO DO JEJUM – 18 de Março de 2012

1. Na tradição da Igreja, a Quaresma sempre foi tempo de jejum. Jejuava-se três dias por semana, à quarta-feira, à sexta e ao sábado. O jejum estava ligado à ideia da penitência e tinha medidas muito rigorosas. Só após os 65 anos se estava dispensado do jejum quaresmal. O jejum dos povos primitivos, prática higiénica, tornou-se uma atitude espiritual e religiosa. Foi assim que o Povo de Israel convidava ao jejum para pedir perdão a Deus, sendo esta recusa de alimentos uma expressão da sua profunda religiosidade. Hoje não é mais assim. Na roda do ano há muita gente que jejua por razões de estética para continuar elegante, por razões de saúde para perder peso, e até, por razões de austeridade para reduzir as despesas. Por tudo isso, a Igreja alterou a prática do jejum quaresmal, reduzindo-a para apenas dois dias, em Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. Poderá então perguntar-se o que é o jejum quaresmal:

• Para o Povo de Israel, jejuar era uma forma de acalmar a ira de Deus, de suplicar o perdão e de evitar os eventuais castigos de Javé.

• Para David, reduzir radicalmente toda a alimentação foi a única forma para penitenciar-se da culpa que o profeta Natan lhe tinha apontado (cf. 2Sm 12, 15).

• Para a cidade de Ninive, o jejum foi a forma encontrada para, perante a pregação de Jonas, conseguir-se a conversão de toda a comunidade (cf. Jn 3).

• Para João Baptista, no deserto, comer apenas gafanhotos e mel silvestre, foi a maneira encontrada para preparar a sua missão de precursor (cf. Mt 3, 4).

• Para Jesus, no Monte das Tentações, jejuar 40 dias foi a melhor forma de afirmar que só a Palavra de Deus salva. É que, “nem só de pão vive o homem, mas também da Palavra que vem de Deus” (Mt 4, 4).

• Para as comunidades cristãs, o jejum permitia-lhes a partilha fraterna, uma vez que punham tudo em comum (cf. Act 4, 32).

É por tudo isto que Jesus no Evangelho diz textualmente “quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. Tu, porém, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido” (Mt 6, 16-18).

2. Uma certa ascese é característica do tempo quaresmal e jejuar é sinónimo de renunciar. Há tantas coisas a que se pode renunciar para viver com mais exigência a beleza deste tempo de preparação para a Páscoa. Como dizia recentemente um político, é preciso ter capacidade de sair da zona de conforto em que tantos vivemos. Forma original de convidar às renúncias necessárias. Mas renunciar como?

• Fazer refeições simples – economizar na mesa, seja em casa, seja no restaurante, proporciona uma pequena importância que pode ajudar a vencer a fome de uns tantos.

• Caminhar a pé – deixar o automóvel em casa, para além do exercício físico, é também uma economia que pode servir a muitos outros.

• Controlar os consumos – evitar manter hábitos que têm muita carga negativa, como o tabaco, ou o álcool em demasia, e até, as drogas lícitas em tantos medicamentos que se poderiam evitar é fonte de mais saúde e mais alegria de viver.

• Evitar conversas inúteis – perder tempo a falar de nada, simplesmente para um entretenimento, às vezes carregado de maldizer, em que os outros são os alvos de todas as críticas, é prática absolutamente negativa.

• Construir o convívio familiar – ficar tempos sem fim diante da televisão ou em jogos de computador é coisa a evitar para que a família possa sentir o aconchego de uma relação estável, porta aberta à felicidade.

• Deixar as noitadas frequentes – procurar novas formas de lazer constitui um autêntico desafio, sobretudo para os mais novos, uma vez que as “directas”, quando frequentes, se tornam mesmo negativas.

Cada um pode descobrir as suas formas de jejuar em tempo de Quaresma. Estas, e outras, podem modelar uma vida diferente em que o ser cristão se torna testemunho no meio da cidade. Em vez de lamentos, pela situação que se vive, há raios de esperança a brilhar em ordem a um futuro que vai ser melhor.

3. Jejum e partilha relacionam-se profundamente. O que se economiza no jejum pode reverter para ajudar outros que estão em dificuldade. Para encontrar esses pequenos fundos disponíveis, há pessoas que habitualmente na Quaresma se propõem a renúncias de extraordinário significado.

• Há quem, durante este tempo, deixe completamente tudo o que é doce: as sobremesas, os bolos, os chocolates, e é grande a economia conseguida.

• Há muitos que deixam de fumar completamente neste caminho quaresmal. Quantos cigarros ficam apagados e o preço do tabaco é suficientemente alto para se conseguir uma boa receita.

• Há alguns que se levantam mais cedo e aproveitam este tempo para pequeninas actividades que feitas por outros trariam encargos. Há aqui também um rendimento possível.

• Há um ou outro que neste tempo compra menos jornais e revistas, a sua tentação constante. As revistas são caras, os jornais sobem de preço, o resultado da moderação é um bom contributo para a solidariedade.

• Também há pessoas que evitam comprar roupas caras nas lojas de marca. Alguns experimentam mesmo ir às feiras onde também encontram peças bonitas. Que grande economia!

• Há uns tantos que diminuem a velocidade do automóvel para que o consumo não seja tão grande. Saber calcular o lucro conseguido, para o repartir, é extraordinário gesto de amor.

Estas e muitas outras formas permitem descobrir o verdadeiro sentido do jejum. Sem a partilha, numa simples ascese, o jejum quaresmal talvez perdesse o seu significado profundo. Neste tempo difícil, inventar formas de ajudar outros, é redescobrir o verdadeiro sentido do jejum quaresmal.

4. Uma pequena história. Numa festa da Rádio Renascença do Norte, no Natal, apareceu uma velhinha que queria colaborar na campanha de recolha de bens para as Conferências de S. Vicente de Paulo. Contou que tinha prometido para si mesma que, se não lhe tocassem na reforma, nem no décimo terceiro mês, a diferença a daria à campanha da RR. Numa meia trazia algumas notas e algumas moedas para oferecer. Como se compreende, a reforma era bem pequenina, para nada lhe cortarem, mas a generosidade do coração não tinha medida.

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