A FANTASIA DA CARIDADE – 25 de Março de 2012

1. No caminho quaresmal há três atitudes que abrem a porta à Reconciliação: o encontro com Deus na oração, a austeridade e penitência no jejum, e a caridade na dádiva da esmola (cf. Mt 6, 2). Estas três atitudes não podem ser hipócritas, isto é, feitas para serem vistas pelos homens. Têm de ser autênticas, reveladoras da profunda comunhão com Deus, e da total fraternidade com os irmãos. Com esta sensibilidade, João Paulo II, em vários dos seus escritos, refere a importância da “fantasia da caridade”. Não basta amar os outros, é necessário constantemente inventar as melhores formas de amor. Jesus foi Mestre ao iniciar-nos na fantasia da caridade.

• “Dar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4, 18). Ao definir a sua missão, Jesus, seguindo o profeta Isaías, assume-se como servidor dos mais pobres, dos oprimidos, de todos os que sofrem. É, na caridade, dar prioridade àqueles que toda a gente despreza e que é urgente amar.

• “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Jesus teve pena da multidão que o seguia há três dias. A multiplicação dos pães, convite à partilha, abriu um tempo novo da caridade. A generosidade de um jovem que tinha cinco pães e dois peixes, pela proposta de Jesus, atingiu a multidão de milhares de homens e de mulheres, e todos ficaram saciados. Foi a mais extraordinária parábola da partilha que Jesus soube contar.

• “Lázaro sai para fora” (Jo 12, 43). Jesus compadeceu-se com todos aqueles que tinham perdido alguém. Jairo acabava de ver a filha “adormecer”; a viúva de Naim acompanhava o filho à sepultura; Marta chorava Lázaro, o irmão morto há quatro dias. Jesus vai ao encontro da dor humana e liberta todos da morte. Maior amor é impossível.

• “De todo o lugar Lhe traziam doentes e Ele curava-os a todos” (Mt 4, 24). O sinal que Jesus dava de que era o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao Mundo, era as curas dos doentes. Cegos, coxos, paralíticos, leprosos, com pequenos gestos de amor, voltavam a encontrar a alegria de viver. Era a fé, a confiança em Jesus, que lhes restituía a vida com qualidade. Encontrar Jesus era, para estes, fonte de salvação.

• “Vai em paz os teus pecados são perdoados” (Mt 9, 2). Com o escândalo dos fariseus, Jesus dizia a todos os pecadores que o perdão do pai era muito maior que a história de cada um. Curados pela fé, recebiam o perdão total e eram convidados a caminhar a um ritmo diferente no futuro. Perdão total era a maior prova do amor.

• “Todos te procuram” (Mc 1, 37). Quem d’Ele precisava ia ao seu encontro, mesmo em lugares desertos, quando estava em oração. N’Ele punha a sua esperança. A relação, mesmo com os mais pobres, era a sua expressão de amor. Em tudo e sempre, Jesus viveu a fantasia da caridade.

• “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Até na proximidade da morte, crucificado, entre dois homens condenados, a Palavra de Jesus foi de ternura. Quem abre o coração a Jesus encontra sempre um grito de amor para se sentir feliz.

Ao lermos os Evangelhos é-se surpreendido constantemente com as palavras e os gestos de amor que marcavam o Filho do Homem. Como Ele próprio o disse: Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu próprio Filho Único (Jo 3, 16). Jesus, em última análise, é o amor de Deus na história, um amor que salva.

2. A vida cristã, centrada na pessoa de Jesus, obriga a redescobrir a caridade. O Evangelho, de uma forma constante, define claramente qual é o caminho do amor. Não é possível ficar no simples cumprimento da Lei Antiga. Jesus não veio para destruir a Lei mas para a completar (cf. Mt 5, 17-20).

• O Mandamento Novo (Jo 13, 34) “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei, por isto vos conhecerão como meus discípulos”. O amor torna-se, por vontade de Jesus, a “marca” do cristão, a forma como é conhecido.

• O perdão total (Mt 18, 21-22). Pedro julgou que bastava perdoar sete vezes. Jesus, porém, deu a regra, perdoar setenta vezes sete, isto é, perdoar sempre.

• A Reconciliação (Mt 5, 23-24). Estando diante do altar para fazer oferendas, se alguém recorda que há quem esteja de relações cortadas com ele, deve interromper a oração indo primeiro reconciliar-se. A dinâmica do perdão total, na relação fraterna, é a exigência máxima para o cristão.

• Amar até à unidade (Jo 17, 21). Como Jesus e o Pai são um só no amor, também todos os cristãos têm o dever de construir a unidade até à comunhão total. Desafio difícil, mas essencial para seguir Jesus até ao fim.

• Julgados pelo amor (Mt 25, 40). O que fizeste ao mais pequenino dos teus irmãos foi a Mim que o fizeste. Por isso diz o Senhor: nos fins dos tempos, vem possuir o Reino que foi preparado para ti desde todo o sempre.

• A maior prova do amor (Jo 15, 13). De muitas maneiras Jesus veio dizer que dar a vida por aqueles a quem se ama é a expressão máxima do amor. É uma proposta radical, mas que leva ao máximo a fantasia da caridade. Não se diga que não é possível, esta foi a “loucura” dos mártires.

O capítulo quinto de S. Mateus, que começa com as Bem-Aventuranças, propõe não apenas o cumprimento da Lei mas a plenitude da lei que se encontra no amor. Por isso termina com uma expressão que poderá ler-se assim “sede então perfeitos no amor, como o Pai do Céu é perfeito a amar” (Mt 5, 48).

3. A fantasia da caridade, nesta Quaresma, pede aos cristãos um novo dicionário que lhes permita amar sempre com o coração cheio de exigência. Algumas palavras que marcam o caminho quaresmal:

• acolher – estar sempre disponível para quantos nos procuram, qualquer que seja a circunstância, constitui um apelo de conversão quaresmal.

• compreender – tentar entender com o tempo necessário o problema do outro que veio ao nosso encontro, não é fácil. Exige tempo, reclama palavras assertivas, e pede respostas que sejam suficientemente salvadoras. Todos são diferentes, mas todos precisam da atenção necessária.

• servir – o serviço generoso constitui a melhor forma de seguir Jesus. Como Eu vos servi, sirvam-se vocês também uns aos outros (cf. Jo 13, 14).

• partilhar – pôr em comum os nossos bens, sobretudo o que nos sobra, é uma forma privilegiada de imitar as primitivas comunidades cristãs. “Todos punham tudo em comum” (Act 2, 44).

• preferir – esta é das tarefas mais difíceis, escolher aqueles a quem se ama. Olhando com atenção maior os mais pobres, os pequeninos, os de mais idade, os marginais, os mais abandonados.

• perdoar – há tantas razões pelas quais se fica magoado ou se cortam relações. A fantasia da caridade pede mesmo a invenção das formas de perdão.

• amar – é esta a originalidade do ser cristão: amar a todos, amar sempre, amar em qualquer circunstância. Um amor que redime e salva.

Chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram; ter um prato à mesa disponível para quem chega e nos surpreende; aceitar uma chamada telefónica e escutar um desabafo ou uma súplica; apoiar nos estudos um jovem ou um adulto em dificuldade; tudo isto e muitas outras coisas são expressões da fantasia da caridade.

4. O Evangelho de Mateus fala da oração, do jejum e da esmola. Para se não ser hipócrita será necessário que
cada um converta a esmola na fantasia da caridade (cf. Mt 6, 2).

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