VIVER O TRÍDUO PASCAL – 1 de Abril de 2012

1. Os cristãos dos primeiros séculos centraram toda a sua liturgia na celebração da Páscoa. No Domingo que se seguia à Páscoa dos judeus, os cristãos recordavam com alegria a Ressurreição do Senhor. Para viver bem este grande acontecimento sentiram ser necessário recordá-lo ao longo de três dias, acompanhando os gestos mais importantes que Jesus vivera. Queriam evocar a Última Ceia em que Jesus repartira o pão com os seus discípulos dizendo-lhes: “tomai e comei, isto é o meu Corpo”. Sentiam o desejo de viver a Paixão e Morte de Jesus, uma vez que sabiam ser esta hora a expressão máxima do amor. Finalmente, na noite de Domingo, gostavam de partilhar a alegria da Ressurreição. A estes três dias foi, desde o primeiro século, chamado o Tríduo Pascal. Só muito mais tarde, no princípio do século IV, em 325, com o Concílio de Niceia, se definiu a Quaresma como tempo de preparação para a Páscoa. Se, para os primeiros cristãos, era tão importante a celebração do Tríduo Pascal, que lugar têm estes três dias na vida dos cristãos de hoje.

• Alguns, nestes dias, fazem férias no campo ou na praia, ou à beira-mar, e as férias são sempre tempo em que tudo se esquece, até a vivência pascal.

• Uns tantos programam viagens há muito sonhadas que os levam às sete partidas do mundo, mas que acabam por secundarizar o essencial.

• Alguns aproveitam este tempo para arrumar umas coisas que se acumularam, desordenadas, ao longo dos primeiros meses do ano. O trabalho é tanto que nem dá para ir à igreja participar nas celebrações desses dias.

• Os mais selectivos aproveitam para dar um salto a uma cidade qualquer onde o exótico das celebrações pascais seja um eventual aumento de cultura, querem ver os farricocos, escutar as saetas, acompanhar as procissões do Senhor Morto. Para estes é isso a celebração pascal.

• Muito poucos vivem com interioridade o Tríduo Pascal, reduzindo no entanto a tempos de silêncio em que contemplam sozinhos o mistério de Cristo.

• Só as comunidades vivas celebram com toda a sua profundidade os três dias em que a Igreja inteira vive a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

Num ambiente muitas vezes profano, o Tríduo Pascal fica reduzido a muito pouco, em termos de aprofundamento da fé e de compromisso cristão. No entanto, a Semana Santa, também chamada a Semana Maior, deveria tornar-se o tempo mais importante da celebração da fé para todos os cristãos. Celebrá-la assim, só é possível numa comunidade viva.

2. O elogio do amor – A Quinta-Feira Santa consagra a Primeira Eucaristia de todos os tempos. Os cristãos evocam o dia em que Jesus quis comer a Páscoa com os seus discípulos. Ele tinha prometido dar-lhes o pão vivo descido dos céus (cf. Jo 6). Durante a refeição, no Cenáculo, pegou no pão e deu aos seus discípulos dizendo: “tomai e comei, isto é o meu Corpo”. Fez o mesmo com o cálice: “tomai e bebei, isto é o meu Sangue”. Nas celebrações da Quinta-feira Santa, vive-se o dom do sacerdócio concedido a alguns para a constante edificação da Igreja (Missa Crismal). À tarde, a Missa da Ceia evoca atitudes cristãs fundamentais:

• A humildade – no gesto do lava-pés é Jesus que dá o exemplo. Ajoelhando-se aos pés dos Apóstolos quis significar que todos devem fazer-se pequeninos para acolher com amor quantos os procuram.

• O serviço – Jesus repete o gesto de servir, uma vez que todos os hóspedes eram recebidos com uma atitude de simplicidade. Lavar os pés e dar um beijo a quem chegava era sinal da alegria no receber. Por isso Jesus disse: “como Eu fiz, façam vocês também” (Jo 13, 15).

• A partilha – Jesus soube repartir o pão e o vinho, isto é, o seu Corpo e o seu Sangue, para que todos tivessem vida e vida em abundância (cf Jo 10, 10). Sem o pôr em comum a vida estiola e morre. Com o pão e com o vinho, repartir a vida pelos outros permite continuar a Eucaristia ao longo do tempo.

• A presença – na Última Ceia, Jesus torna-se presente de uma forma constante na vida de todos os cristãos. Por isso, Ele afirmou “todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em minha memória”. Então, quando celebramos a Eucaristia tornamo-nos em Cristo sinal de unidade e vínculo de amor. E, ao mesmo tempo, vivemos com alegria o Banquete Pascal (cf. SC 47).

• O compromisso – os discípulos quiseram comprometer-se em Jesus depois da Última Ceia, mas não foram capazes de rezar com o Senhor. Adormeceram e, no momento mais importante, na proximidade da Cruz, afastaram-se. Porque Cristo voltou à vida, porém, depois da Ressurreição, já conseguiram comprometer-se até ao dom da vida.

Na Quinta-feira Santa celebramos o mistério do amor, uma vez que Jesus, o Cordeiro Pascal, se dispôs a dar a vida por todos os que viriam a ser marcados pelo amor.

3. A loucura da Cruz – A Sexta-feira Santa contempla a Cruz de Cristo. Perguntar-se-á, porque O condenaram à morte? Naquele tempo, em Jerusalém, quem dissesse o que Jesus dizia, quem fizesse os gestos que Jesus fazia, quem enfrentasse o poder com propostas libertadoras, acabaria na cruz. Jesus trazia Boa Nova para os pobres, tinha solidariedade com os oprimidos e os infelizes, saciava os que tinham fome e reintegrava os marginalizados. Tudo isto era uma ofensa para o poder do Sinédrio. Então, os Sumos Sacerdotes ditaram a sua morte e Pilatos condenou-o à crucifixão. É tudo isto que se contempla neste segundo dia do Tríduo Pascal.

• A leitura da Paixão – João Evangelista tem originalidades quando descreve a Paixão de Jesus. O tribunal, que foi religioso e político, também foi popular. As mulheres, no meio da multidão, foram integradas como expressões de amor, no caminho da cruz. Maria ficou de pé e aceitou uma nova maternidade. Escutar a leitura da Paixão é momento de grande intensidade para o aprofundamento da fé.

• O madeiro da Cruz – a Cruz de Cristo multiplica-se de muitas formas no viver humano. Cristo assume todas as cruzes para a tudo redimir e a todos salvar. Contemplar a Cruz é universalizar a salvação.

• A oração universal – na oração da comunidade cristã estão hoje presentes todos os homens com os seus problemas. As doze preces que são formuladas significam que tudo e todos estão presentes no coração de Cristo quando Ele morre na Cruz. Não há situação alguma que, passando pelo madeiro da Cruz, não venha a alcançar a redenção.

Na noite de Sexta-Feira Santa, a televisão vai levar ao mundo inteiro o Papa Bento XVI, acompanhando a Via Crucis no Coliseu de Roma. Nas ruas de Lisboa vão celebrar-se os 14 passos da Via Sacra. Deveria ser a Terra inteira a contemplar o mistério de Jesus na sua Paixão e Morte. Que ao menos os cristãos celebrem este mistério de vida.

4. A surpresa da luz – Na Vigília Pascal vai ser proclamada a Ressurreição de Cristo. Não se podia ficar nas trevas e só Cristo é a verdadeira Luz que devia vir a este mundo. Em plena noite vai ouvir-se uma voz a dizer: “Ele está vivo, ressuscitou. Esta é a noite de todas as noites, como diz o Precónio Pascal, nela brilha a Luz que resplandece para todo o sempre, na vida da humanidade”.

• O mistério da luz – já João Baptista dissera que ele não era a luz, mas que vinha para dar testemunho da Luz. A Luz que é Cristo resplandece no coração da noite e tudo se transforma, tudo se renova e tudo se redime.

• A história da salvação – em Abraão, o pai da fé, em Moisés, o libertador, nas vozes dos profetas Ezequiel e Isaías, vai-se descobrindo a salvação por chegar. Mas quando Cristo chegou, proclamou a Boa Nova do Reino e, através dela, a Redenção. Puderam os samaritanos dizer: “agora sabemos que és o Salvador” (Jo 4, 42). Mas a salvação só se realiza quando Cristo, vencida a morte, ressuscita.

• A proclamação de Cristo ressuscitado – com glórias que se cantam, com sinos que repicam, com palmas que se multiplicam, é a comunidade cristã no seu todo que afirma que Cristo ressuscitou. Anuncia-o Maria Madalena, confirmam-no Simão Pedro e João, apercebem-se disso os discípulos de Emaús e os pescadores de Tiberíades, mas é o grupo dos Apóstolos, no Cenáculo, que recebe Jesus, fala com Ele e aceita o dom do Espírito para anunciar esta Boa Nova.

• A alegria da Igreja – a comunidade cristã, no seu todo, reúne-se para a grande festa, porque Jesus está vivo. A todos faz viver no tempo e na eternidade.

A Luz que foi surpresa na noite, tornou-se um dom que jamais pode perder-se. Jesus Cristo é a Luz verdadeira que vem a este mundo.

5. O nosso Tríduo Pascal – Compreende-se que razões, as mais diversas, possam impedir qualquer um de estar presente na celebração do Tríduo Pascal na comunidade do Campo Grande. Mas vale a pena pedir que em qualquer lugar em que se esteja, se viva a Liturgia Pascal celebrando o elogio do amor, a loucura da Cruz e a surpresa da Luz. Boa Páscoa para todos.

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