O QUE FAZER DO MEU TEMPO – 24 de Junho de 2012

O QUE FAZER DO MEU TEMPO?
1. Uma das páginas mais belas do Antigo Testamento é a que nos é oferecida pelo Livro do Eclesiastes sobre a importância do empo. A Palavra de Deus diz assim: “Tudo tem o seu tempo. Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja, debaixo do céu … todas as coisas que Deus fez são boas a seu tempo” (Ecl 3, 1- 11). No mundo de hoje, porém, entre o nascer e o pôr-do-sol, há um enorme desperdício de tempo. Não é apenas o facto de não produzir, é, sobretudo, a perda de tempo que marca a vida de grande número de pessoas. Poderia parafrasear-se o poeta e dizer “Não fazer nada, chorar, / chorar como uma criança /que já não tem confiança / no próprio Deus da doutrina. /Não fazer nada / chorar / até o pranto coalhar / na retina.” (Carlos Queiroz). Se o poeta falava no “não dizer nada”, hoje, com a inutilidade de tanto tempo poderá escrever-se “não fazer nada”. Há muito tempo mal gasto.

• Tempo de espera – nas inúmeras filas, para tudo. Na paragem dos transportes públicos, nos consultórios médicos ou nas urgências, em tantas outras coisas, quanto tempo perdido.

 • Tempo de maldizer inúmeras pessoas se entretêm a falar de outros e, curiosamente, nunca afirmam o que de melhor os outros têm, vai-se rebuscar qualquer defeito para lhe dar a publicidade inoportuna.

• Tempo de folga durante o trabalho – quantas vezes se vai ao bar tomar café, quantas vezes se folheia o jornal ou a revista cor-de-rosa, quantas vezes se conversa ao telefone com os amigos, se mandam mensagens por SMS e se fazem jogos no computador … como se fazem tantas outras coisas quando era urgente a actividade, para o serviço do bem de todos.

• Tempo de “zapping” à procura de nada – os serões em muitas famílias, não permitem uma conversa útil porque o mudar de canal, na televisão, não permite uma conversa continuada, a acompanhar os acontecimentos que poderiam ter algum interesse.

• Tempo de inutilidades – a vida de muita gente é terrivelmente fútil. Passam-se horas sem nada fazer, de tal maneira que, ao fim do dia, se sente um terrível vazio porque o tempo que passou não foi bom para ninguém.

O Livro do Eclesiastes dá-nos a medida do tempo com os maiores contrastes que ele pode conter. O desafio que é feito pela Palavra de Deus, está na recolha do positivo que cada hora do dia pode oferecer. Não está em questão apenas o bem pessoal. Aproveitar todo o tempo é um convite ao bem comum.

2. É frequente ouvir dizer “não tenho tempo” e, curiosamente, são os menos ocupados que o repetem constantemente. Há quem se levante de manhã sem prever o que vai fazer ao longo do dia. Há jovens que estão em férias e que vagueiam entre o Centro Comercial, a praia, a discoteca, à procura de coisas para fazer, porque nada programaram de útil. Muitos limitam-se a cumprir rotinas, preenchendo todo o tempo disponível em nada fazer. Tantos refugiam-se no conforto dum sofá à espera que o tempo passe. “Não tenho tempo”, é a expressão de quem não é capaz de organizar a sua vida para enriquecer os seus dias. Não se tem tempo:

• Para em casa alimentar o amor, com um sorriso, uma palavra de ternura, um momento de amor, uma expressão de comunhão plena;

• Para dar atenção aos filhos, que querem ser ajudados nos trabalhos de casa, que têm uma dúvida de adolescente, que querem conversar sobre inúmeras coisas que lhes acontecem;

• Para visitar um amigo doente, marcado profundamente pela solidão que o envolve e que o faz sofrer;

• Para estar com os avós ou os pais já de idade que, de repente, viram partir os filhos para longe e sentem a falta do carinho a que tinham direito;

• Para exercer o voluntariado, numa organização de solidariedade, sobretudo neste tempo em que tanta gente sofre as maiores dificuldades;

• Para dar tempo ao silêncio, à reflexão ou à oração, coisas indispensáveis à realização de cada um.

Quando se pede apoio a alguém é frequente ouvir-se “não posso perder tempo”, como se o serviço aos outros, qualquer que fosse esse serviço, se tornasse perda para alguém. Repensar o tempo de cada um pode ser um desafio nesta altura do ano em que as aulas terminam, em que as férias vão começando, em que o tempo de repouso não pode ser tempo de inutilidade. O tempo que se gasta não é perda, pode sempre tornar-se tempo de vantagem.

3. O tempo é um Dom de Deus, que pode organizar-se. São inúmeras ocasiões em que no Antigo e no  Novo Testamento se fala do tempo. Elias queria terminar o seu tempo e o Senhor, quando ele estava à sombra do junípero, alimentou-o para que pudesse caminhar ainda 40 dias e 40 noites (cf. 1Rs). Todos os reis de Israel foram convidados a dar tempo à reflexão para descobrir a melhor forma de servir o Povo. Todos os profetas tinham um tempo para ouvir a voz de Deus e depois a proclamar. Também JoãoBaptista, o percursor, precisou do tempo do deserto. E Jesus para anunciar o Reino, exigiu-se 40 dias de silêncio antes de iniciar a sua missão. Os Apóstolos precisaram de tempo antes da manifestação do Espírito Santo. Em toda a história da salvação há sempre a preocupação de cumprir o tempo. Será cada um de nós capaz de organizar o seu tempo? Tempo para o trabalho e tempo para o descanso; tempo para a família e tempo para a vida social; tempo para a cultura e tempo para o lazer; tempo para o estudo e tempo para o silêncio; tempo para a oração e tempo para o serviço dos outros; tempo para aprofundar a fé e tempo para a pôr em práctica no testemunho cristão. Nem sempre é fácil organizar o tempo, mas para o equilíbrio de vida, para a relação com os outros, para a construção harmoniosa da felicidade pessoal e comunitária, é essencial que cada um faça do seu tempo factor de alegria para todos.

P. Vítor Feytor Pinto - Prior

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