O ELOGIO DA SIMPLICIDADE – 21 de Abril de 2013

1. A eleição do Cardeal Jorge Bergoglio para Bispo de Roma e a escolha que ele fez do nome de Francisco revelam a simplicidade que é marca essencial da sua vida. Por isso quer ser simples no vestir, apenas com roupas brancas, simples no rezar, com as tradicionais orações do Pai-Nosso, do Avé-Maria e do Glória, simples no comunicar, usando palavras que toda a gente entende e evitando grandes rasgos teológicos que podem confundir os crentes. Pode perguntar-se onde foi o Papa Francisco buscar esta simplicidade, quando tem um curso de engenharia química, doutoramentos em teologia e filosofia e uma extraordinária cultura geral. Pode dizer-se que esta simplicidade tem dois fundamentos: uma família de emigrantes e, depois do sacerdócio, a experiência de uma paróquia que lhe ensinou a importância da proximidade. Se no Conclave foi surpresa a eleição deste Papa, a maior surpresa é, porém, a da sua extraordinária simplicidade no exercício de tão grande missão.

• É simples na maneira de ser e de estar, seja no diálogo com os cardeais, com as pessoas que vivem a seu lado, com as multidões de quem se aproxima, com especial ternura para com as crianças, os doentes e os que sofrem.

• Tem grande simplicidade na linguagem. Evita tiradas teológicas e prefere expressões populares que toda a gente facilmente entende. Fala não tanto daquilo que sabe, mas sobretudo daquilo que ama. Anuncia a Pessoa de Jesus como alguém que lhe é muito próximo pela intimidade que com ele criou ao longo da vida.

• Não tem medo das palavras. É frequente ouvi-lo falar do amor que é o elemento mais importante da vida dos cristãos. Acrescenta, porém, que é preciso não ter medo da bondade e da ternura, sentimentos que devem ser caros aos cristãos, na sua relação com todos.

• Tem extraordinário sentido de humor. Tira partido de pequenas histórias para sublinhar as ideias que quer transmitir aos outros. Até aos cardeais soube dizer que o pessimismo era obra do diabo. Não fazendo teologia, obrigava ao optimismo, essencial na evangelização.

• Quer continuar com hábitos simples, estando a evitar os aposentos papais onde dizia “cabem mais trezentas pessoas”, querendo as refeições com todos os comensais da casa de Santa Marta, deslocando-se nos pequenos automóveis que não têm insígnias papais.

• A sua síntese de vida está expressa naquilo que disse desde a primeira hora: “quero uma Igreja pobre ao serviço dos pobres”.

O exemplo do Papa Francisco precisa de ser imitado em toda a Igreja, pelos pastores e pelos fiéis, para que assim a Igreja se faça próxima de toda a humanidade, acolhendo todos sem qualquer distinção, com o mesmo amor que é a nota mais importante do Evangelho.

2. A simplicidade faz parte de todas as páginas do Evangelho. É no discurso da Montanha que Jesus, conversando com os discípulos, os convida a serem felizes, não com a felicidade que vem da importância, mas com a felicidade que nasce de um coração simples. Jesus ensinava os discípulos desta maneira: felizes os que têm um coração de pobre, felizes os que têm um coração tranquilo, felizes os que têm um coração cheio de misericórdia, capaz de perdoar, felizes os que têm um coração sincero em todas as circunstâncias, felizes os que conseguem construir a paz. Todos estes podem passar fome e sede, podem lutar pela justiça, podem ser perseguidos, mas nem por isso deixam de ser felizes. A felicidade verdadeira nasce num coração simples, num coração bom.

• Jesus foi muito claro ao dizer: sejam simples como as pombas, embora prudentes como as serpentes. É um apelo à simplicidade permanente.

• Jesus teve uma mensagem única: dar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos oprimidos e a alegria aos que sofrem. Privilegiar os humildes é uma atitude essencial para quem segue o Evangelho.

• Jesus foi mais longe quando, ao abençoar as crianças, teve a coragem de dizer, se não vos fizerdes simples como os pequeninos não tereis parte no Reino.

• Jesus ao enviar dois a dois os 72 discípulos, pediu-lhes que a toda a casa levassem a paz.

• É com simplicidade que Jesus acolhe os doentes, curando-os a todos, com a mesma simplicidade Jesus perdoa os pecados sem condições, e ainda com simplicidade chora a morte do amigo Lázaro, consola a viúva de Naim pela morte do seu filho e acompanha a angústia de todos os que lhe pedem ajuda.

Cada palavra, cada gesto, cada sorriso, cada lágrima, tudo em Jesus faz o elogio da simplicidade.

3. A simplicidade constitui para a Igreja um desafio de extraordinária importância. Ao longo dos séculos criaram-se muitas “complicações” que é preciso ultrapassar com coragem. Será que se consegue esta simplicidade de que o Papa Francisco parece dar exemplo?

• O rigor teológico complica muitas vezes a importância da comunicação, pondo barreiras à mensagem que pelo Evangelho deveria chegar a todos.

• A multiplicidade de regras que o direito estabelece torna por vezes difícil o diálogo simples com as pessoas levando a dizer muitas vezes “não”, o que afasta muitos para sempre.

• Os rituais solenes com regras litúrgicas muito fechadas, transformam tantas vezes a oração comunitária num espectáculo, cuja beleza pode ser considerada por alguns, mas que na maioria dos casos empobrece a celebração, enquanto relação com Deus.

• Os próprios templos têm muitas vezes adornos a mais, o que leva a pensar estar-se em museus, mais do que em lugar de oração, de silêncio, de contemplação. Se a história e a tradição são muito importantes, têm no entanto, que revestir-se de simplicidade para não comprometerem a relação com Deus.

• A própria oração está muitas vezes pautada por devoções complicadas que impedem tantas vezes o encontro pessoal com o Senhor. Mais do que repetir orações feitas, a simplicidade pede o falar com Deus, esperando a resposta na leitura da Palavra.

A simplicidade do Papa Francisco convida todas as comunidades a reinventarem a simplicidade evangélica, para revelar uma Igreja próxima que facilmente é entendida por todos, mesmo por aqueles que andam mais longe. Aliás, a simplicidade máxima está no amor.

4. Poderá perguntar-se porquê fazer o elogio da simplicidade no Dia Mundial da Oração pelas Vocações. A resposta é fácil. Os sacerdotes, os religiosos, os leigos mais empenhados na vida da Igreja, não podem ser complicados, têm o dever de se tornar simples para serem aceites por toda a gente. As complicações no trabalho pastoral afastam os próprios crentes. Ao contrário, as atitudes de proximidade, como o Papa Francisco está a fazer, tornam todos perto da grande mensagem de simplicidade que Jesus proclamou: “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei”.

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