UMA REVOLUÇÃO NA IGREJA? – 28 de Abril de 2013

1. Nesta semana do ano, com a celebração do 25 de Abril e as comemorações do primeiro de Maio, respira-se a ideia de que são as revoluções que transformam a sociedade. Muitos recordam 1974 com a queda das ditaduras e a democratização do País e lembram também como a festa dos trabalhadores é oportunidade para todos se manifestarem, a favor ou contra as liberdades e garantias consagradas numa sociedade livre e em que a responsabilidade é de todos. Com a eleição do Papa Francisco, muitos têm afirmado que se prepara uma revolução na Igreja. Os seus primeiros gestos, e até muitas das suas palavras, configuram atitudes novas que podem anunciar mudanças profundas na forma de a Igreja estar. Não se trata, porém, de uma revolução. Mas de uma renovação que, 50 anos depois do Concílio, parece inevitável. Se o mundo se transforma completamente, a Igreja deve acompanhar essas mudanças, renovando-se também.

• É essa a perspectiva de Francisco que, uma vez eleito Papa, logo quer manifestar o desejo de uma Igreja que todo o mundo entenda.

• Ao falar pela primeira vez à multidão reunida na Praça de S. Pedro, Francisco logo diz que é Bispo de Roma e é como tal que exercerá o ministério petrino. De alguma maneira é um regresso às origens, uma vez que Pedro foi o primeiro Bispo de Roma.

• Despojou-se, depois, de todos os ornamentos que, na tradição, marcavam a figura do Papa. Deixou a cruz de ouro, simplificou a maneira de vestir, e tornou-se próximo de todos.

• Instituiu um conselho de oito cardeais, vindos dos cinco continentes, para o ajudarem na orientação da vida da Igreja no mundo inteiro.

• Deixou os aposentos papais para viver no meio de todos os seus colaboradores, com quem celebra a Eucaristia e partilha todas as refeições.

• Não lê discursos escritos pelos grandes teólogos. Com um à vontade extraordinário comunica com todos, quase com a linguagem do povo. Não é um académico, é um pastor. Respira a ternura de Jesus com os seus discípulos sempre que com eles conversava.

Como pode compreender-se, tudo isto oferece uma nova imagem da Igreja com um Papa que está a ser acolhido no mundo inteiro, por cristãos e não cristãos, por crentes e não crentes, por todos os homens de boa vontade. Isto é o princípio de uma renovação profunda; não é, porém, uma revolução.

2. De tempos a tempos a Igreja sente a necessidade de acompanhar as mudanças que no mundo se concretizam. Foi isto que levou João XXIII a convocar há 50 anos o Concílio Vaticano II. Foi também isto que motivou João Paulo II a dialogar com todos os responsáveis no governo dos povos, no decurso das 169 viagens que o levaram a todos os confins da terra. Agora, é um Papa que vem “do fim do mundo”, com outros hábitos e outras experiências, que pretende revelar uma Igreja marcada pela frescura do Espírito Santo. Se o Espírito faz novas todas as coisas, como pode o novo Papa não deixar mover-se pelo Espírito, para renovar a Igreja? A renovação, porém, mantém-se sempre fiel ao essencial, recebido da Pessoa de Jesus.

• A Igreja é sempre Povo de Deus. Centrada na pessoa de Jesus, lutando pela dignidade e liberdade humana, deixando-se conduzir pela única lei, a lei do amor, promovendo, no que lhe é possível, a felicidade dos homens, convidando todos a prepararem-se para a felicidade eterna (cf. LG 9).

• Haverá sempre a participação de todos no sacerdócio de Cristo. Se alguns são chamados ao sacerdócio ministerial, todos participam no sacerdócio comum dos fiéis. Este Povo de Deus é sacerdotal, em comunhão constante com Cristo Palavra e com Cristo Sacerdote que, no Grande Sacrifício da Cruz, deu a vida pela humanidade. É este sacerdócio que a todos faz ressuscitar.

• A comunidade cristã participará sempre da tríplice função de Cristo. A profecia, a liturgia, e a caridade serão sempre vividas por todos os membros da Igreja nas suas vidas e nas organizações a que pertencem.

• Uma preocupação constante é a da comunhão. Para responder aos desafios do mundo, a Igreja descobre com criatividade novo ardor, novos métodos e novas expressões, mas em tudo converge para a unidade. Na Igreja há uma só Fé, um só Baptismo, um só Deus que é Pai de todos (cf. Ef 4, 5-6). A comunhão com o Papa é referência de unidade.

• No diálogo com o mundo, assume-se uma missão específica. Os cristãos não podem ser apenas contemplativos. Contemplação e acção são duas faces da mesma moeda, o que leva quem contempla a sentir-se mais e mais investido numa acção que transforma o mundo, segundo os valores do Evangelho.

• Finalmente, a comunidade cristã de que se faz parte, tem para todos o mesmo Credo, os mesmos Sacramentos, os mesmos Mandamentos. Viver tudo isto com o compromisso cristão renovará a Igreja na verdade da sua vida, da sua história, das suas tradições.

É esta fidelidade ao essencial que permite uma renovação profunda sem ceder a tentações de revolução fácil, que retiraria à Igreja a sua missão de ser consciência para a Humanidade.

3. A partir dos gestos do Papa Francisco talvez possam encontrar-se algumas linhas fundamentais da revolução necessária. Estes são sem dúvida desafios postos a todas as comunidades cristãs, também para a comunidade Paroquial do Campo Grande, que neste tempo tem o dever de renovar-se. Que linhas serão estas?

• O acolhimento universal – as comunidades cristãs têm que ter a capacidade de estar disponíveis para todos, quem quer que sejam. Como diz o Papa, não uma Igreja de exclusão que repele quem dela se distancia, mas uma Igreja de inclusão que a todos recebe e com quem dialoga numa atitude de proximidade e de amor.

• A abertura ao mundo actual – os homens e as mulheres de hoje são muito diferentes dos que eram há 20 ou 30 anos. A antropologia, a psicologia e a sociologia, ciências humanas, modificaram completamente os valores e os hábitos das pessoas. A Igreja tem que entender isso e dar resposta a uma nova cultura. Saber avaliar as situações, sem marginalizar as pessoas, é um desafio pastoral urgente.

• O diálogo ecuménico e interreligioso – ser de outra religião não é razão de culpa. Foram as circunstâncias de cada um que o levaram às suas opções religiosas, adorando, em última análise, o mesmo Deus. É a relação fraterna que permite sonhar com um só rebanho e um só pastor.

• A importância do laicado na acção pastoral – a falta de sacerdotes pode ser um apelo do Espírito para que os leigos assumam na Igreja o papel que lhes cabe. Tendo eles uma missão para o mundo, fazem parte de uma comunidade onde também são actores. Ser leigo numa comunidade cristã pode proporcionar tarefas imensas que ajudam a mesma comunidade a ficar mais perto dos problemas da cidade.

Este tempo da Igreja tornou-se, de repente, um tempo de esperança. Acolher a mensagem de Francisco, Papa, e tentar pô-la em prática é entusiasmante para todos quantos querem ver uma Igreja com outro rosto ao serviço de todos.

4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande deve descobrir as formas como participa numa renovação permanente. Uma das tentações que se podem ter é a da repetição rotineira do que se faz há vários anos. É necessário renovar sempre mais as estruturas de acolhimento, as formas de anúncio da Palavra, os processos de celebração da liturgia, a resposta em solidariedade, a tudo quanto os pobres nos reclamam. A criatividade pastoral é a resposta aos desafios de renovação que Francisco nos pede. Seremos capazes de ser uma Igreja pobre ao serviço dos pobres?

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