A FORMAÇÃO CRISTÃ – 27 de Outubro de 2013

1. Para actuar como cristão na construção do mundo é necessário ter uma formação específica que permita a cada um saber como dar testemunho de Cristo nas mais diversas situações da vida. D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa, tendo consciência disto, desafiou recentemente as comunidades cristãs a apostarem fortemente na formação cristã dos leigos. É certo que todos tiveram alguma formação religiosa. Quase todos foram baptizados em pequeninos, depois, entraram na catequese, fizeram a primeira comunhão, não deixaram de afirmar a sua fé na profissão solene, participaram em grupos de jovens. Aconteceu, porém, que uma adolescência atribulada, a entrada na universidade com a tentação científica da evidência, a dificuldade em levar até ao fim os comportamentos cristãos e, finalmente, o estar numa “cidade” que a pouco e pouco tem perdido a fé, levou muitos a afastarem-se da Igreja que frequentam esporadicamente, ou a manterem uma rotina religiosa que nada tem a ver com a presença no mundo. A formação cristã, também dos adultos, é uma exigência na Igreja actual. Aliás, toda a vida humana supõe formações específicas:

• A formação escolar acontece desde os primeiros anos de idade. O desenvolvimento cognitivo é essencial para o desenvolvimento da inteligência e a participação na vida social.

• A formação profissional é indispensável para realizar bem as tarefas que a pouco e pouco se vão assumindo. Um profissional competente tem que ter formação específica, actualizada, avaliada, para responder aos desafios do mundo actual.

• A formação cívica também se torna fundamental para quem vive na cidade. Saber estar, saber conviver, saber fazer silêncio, a par das pequenas atitudes, na refeição, na sala de estar, no convívio com os mais velhos, nas situações de cerimónia, tudo é importante na formação integral da pessoa.

• A formação económico-política é hoje de uma importância capital, numa sociedade democrática em que todos têm direitos e deveres. Não é fácil contribuir para uma democracia activa em que todos participam e têm uma quota de responsabilidade. Facilmente se compreende que também esta formação é indispensável para o bem comum.

Curiosamente, muitos julgam ser desnecessária a formação cristã centrada na adesão incondicional à pessoa de Jesus Cristo, com uma vida activa dentro da Igreja e no mundo testemunhando sempre em toda a parte os valores do evangelho.

2. Ao terminar o Ano da Fé compreendeu-se que uma fé viva, responsável, activa e comprometida, exige uma formação suficiente que defina claramente os muitos comportamentos humanos a que o cristão é obrigado. Como diz o Concílio, pertence ao leigo “tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor” (LG 31). O mesmo Concílio acrescenta que “o cristão tem o dever de dar razão da esperança que nele habita, dando testemunho de Cristo em toda a parte” (AA 10). Com estes parâmetros compreende-se que o cristão tem intervenção própria na vida de família, no mundo da cultura, na intervenção económico-social, na acção política e na construção da paz (cf GS II parte). Tudo isto exigirá, então, uma formação que não é apenas religiosa mas é, sobretudo, orientada para a ordem temporal com a intervenção do cristão na vida do mundo em que está inserido. Para conseguir esta formação são necessários 4 parâmetros:

• Atenção aos valores cristãos que, no dizer de João XXIII, são: a verdade, a justiça, a liberdade e o amor (PT 35). Sem estes pilares da paz nunca será possível construir uma sociedade justa e fraterna.

• O testemunho cristão é mais do que o exemplo de vida. Consiste, no dizer de Paulo VI, em “acolher e compreender toda a gente, ser solidário com os mais pobres e viver em comunhão de vida e de destino com o povo de que se faz parte” (EN 21).

• A coerência de vida é um sinal privilegiado do cristão. Não é fácil viver como cristão em família; mais difícil é, ainda, ter uma competência profissional reconhecida por todos; como também é exigido aceitar correr riscos na intervenção económico-política, para que em tudo, com os valores do Evangelho, no respeito pela dignidade e liberdade de todos, se participe na construção do bem comum.
• O anúncio de Jesus Cristo, Redentor e Senhor, é também da competência do cristão leigo. Como dizia Paulo a Timóteo, “Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e sã doutrina.” (2 Tim 4, 2). A fidelidade ao anúncio no respeito total pelo outro, sendo muito difícil é sempre uma exigência para o cristão.

A formação cristã torna-se, então, indispensável para todos os que dizem seguir Jesus Cristo. Não pode acontecer que para tudo se tenha uma preparação de grau universitário e que, para o compromisso cristão, se tenha pouco mais que “a quarta classe”, recebida na catequese de infância.

3. A Paróquia do Campo Grande quer apostar nesta formação cristã durante o Ano pastoral agora em curso. Para tanto propõem-se três iniciativas:

• A catequese de adultos – sabendo que catequese não é aprendizagem mas é iniciação ou reiniciação à vida cristã, seria óptimo multiplicar os grupos de cristãos que, à luz do Evangelho, tentam levar a sua fé para a vida de todos dias. Existem vários grupos de catequese de adultos. Muitos outros podem ser criados, especialmente com os pais das crianças e dos jovens que estão nos grupos da paróquia.

• A Escola de Leigos – no Advento e na Quaresma vão funcionar cursos da Escola de Leigos do Patriarcado de Lisboa, abertos a quem quiser neles participar. Os temas são aliciantes: “A Fé actua pelas obras” e “Desafios actuais à transmissão da fé”. Esperamos que muitos cristãos queiram aprofundar os valores do Evangelho para os levar à prática na vida quotidiana.

• Aprofundamento litúrgico – seguindo o evangelista Mateus, em reflexão sistemática, rapidamente se chega à conclusão de que se deve ser cristão, não apenas no templo, mas nas peripécias fáceis ou difíceis do dia a dia.

Há outras actividades da Paróquia que ajudam a levar a fé ao terreno, à vida prática. Certamente que as homílias de domingo fazem parte deste desafio. Saberá cada um aproveitá-las?

4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande, seguindo o apelo do senhor Patriarca, quer mesmo fazer aprofundamento da fé, para maior intervenção cristã em todos os acontecimentos. Assim todos queiram inscrever-se em algumas destas iniciativas, segundo os seus gostos, e assim também Deus nos ajude.

Pe. Vítor Feytor Pinto
Prior

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