O ADVENTO, DEPOIS DO ANO DA FÉ – 1 de Dezembro de 2013

1. Com a festa de Cristo Rei, a 24 de Novembro, terminou o Ano da Fé. Inspirado pela energia que os Papas Bento e Francisco deram às comunidades cristãs que se renovaram na sua incondicional adesão à pessoa de Cristo (a Fé) e no seu empenho nas obras de solidariedade e desenvolvimento (a caridade), o patriarca de Lisboa escolheu, como tema para o Ano Pastoral 2013/2014 um slogan muito apropriado: “A Fé actua pela Caridade”. No contexto deste tema, depois de concluído o Ano da Fé, como deverá ser vivido o tempo de Advento, de preparação para o próximo Natal?

 • Advento quer dizer chegada. Não a chegada dos imperadores romanos quando iam visitar os seus territórios, mas a chegada de Jesus ao mundo para o renovar dando início aos caminhos da redenção.

 • O Advento foi instituído na Igreja por volta do ano 600. Se o Concílio de Niceia (325) tinha criado a festa do Natal, só 3 séculos depois se compreendeu que o Natal deveria ter um tempo de preparação. Assim, surgiu o Advento.

 • O Advento em 2013 deve estar inspirado em tudo aquilo que se viveu no Ano da Fé, mas também no que está a dizer-nos o Papa Francisco, na sua constante preocupação com os pobres, no seu desejo de renovar a Igreja, na sua proposta para a alegria ao proclamar-se o Evangelho.

 Acaba de sair a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) que nos convida, neste Natal e para sempre, a preferirmos os mais pobres e a oferecer ao mundo uma Igreja com o rosto cheio de alegria. O Papa Francisco disse, em Roma, no encerramento da Conferência Internacional, em que eu participei, que “o Mundo sem atenção aos mais velhos (pobres e doentes) não tem memória nem futuro”.

2. Se o programa pastoral da nossa comunidade é “A Fé actua pela caridade”, então, deve traduzir-se isto em formas específicas para preparar o Natal.

 • Com Isaías, a fé actua pela justiça. Há dois textos do profeta que reclamam a igualdade para todos. “A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir” (Is 11, 1-10). Além disso o profeta afirma que é preciso transformar as espadas em relhas de arado e as lanças em foices para colher o pão (cf. Is 2, 4). Sempre o desafio da justiça.

 • Com Maria, a fé actua pela ternura e pelo amor. Se o mundo perdeu o sentido do amor, os cristãos devem estar atentos para saber amar com Maria. Ela soube dizer sim à vontade de Deus, sem condições; ela soube aceitar a dureza de Belém, do Egipto e de Nazaré; ela soube acompanhar o filho adolescente, na subida a Jerusalém; ela soube estar atenta ao que faltava na mesa em Caná da Galileia; ela soube ir ao encontro de Jesus quando, em Jerusalém, Ele começou a ser incompreendido e perseguido; ela soube ficar de pé no Calvário. Maria é a Senhora da ternura.

 • Com João Baptista, a Fé chega pela esperança. Quando João nasceu, os pais deram-lhe um nome que anunciava ser ele o precursor. A partir daí toda a sua vida é um convite à esperança, na certeza de que o Salvador virá. Na ascese do deserto João preparou-se para anunciar o Messias; nas margens do Jordão soube indicar Jesus como o Cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo; junto à água baptizou Jesus e ouviu-se então uma voz que dizia: é este o meu Filho muito amado; aos discípulos pediu que confirmassem ser Jesus o Salvador por chegar; e Jesus confirmou a João Baptista ser Ele o esperado das nações, quando disse: “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados”. João Baptista foi de verdade o profeta da esperança. As pessoas repartiam os bens, a vida de cada um transformava-se, e o sonho do Messias, presente no mundo, confirmava-se.

Com estas figuras do Advento prepara-se a chegada do Salvador.

3. Na comunidade paroquial do Campo Grande é fundamental viver o Advento como autêntica forma de preparação do nosso Natal. Há muitos que preparam estes dias de festa com a compra de inúmeros presentes. É o Natal do consumo. Há gente que se preocupa sobretudo em preparar a consoada, com o bacalhau e os doces característicos de cada região. É o Natal das guloseimas. Outros há ainda que preferem isolar-se numa viagem qualquer para, longe de tudo, poderem descansar. É o Natal do “fazer nada”. Os cristãos têm que ter um Natal diferente, marcados por quatro dinamismos indispensáveis. É a essa preparação que se chama Advento, com a oração, a reconciliação, a partilha e a alegria comunitária.

 • A oração é a afirmação da fé. Os cristãos sabem que o Jesus que nasceu em Belém é mesmo o Filho de Deus que devia vir ao mundo. Conversar com Ele, abrir-lhe o coração, pedir-lhe auxílio, agradecer-lhe tudo quanto dá, são formas muitas de uma oração intensa nesta preparação do Natal.

 • A reconciliação é exigência da caridade. Pode haver motivos que levem a marcar distâncias na relação das pessoas, algumas das quais que até são próximas. A preparação do Natal, porém, convida ao dom do perdão, ao reencontro com aqueles que se perderam, à reconstrução da unidade indispensável para a afirmação da fé. Jesus foi claro “amai os vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem e maltratam”. A reconciliação com os homens e a reconciliação com Deus fazem parte da preparação de Advento.

 • A partilha é expressão forte de solidariedade. Ao cristão não basta dar aos outros o que lhe sobra. É convidado a pôr em comum até coisas que lhe são necessárias. A simples solidariedade é imperfeita. A caridade verdadeira, fundamentada na fé, convida a repartir quase sem medida. E, na proximidade do Natal, há lágrimas para secar, há sedes para vencer, há fomes para mitigar, há carências para compensar. O Natal dos pobres tem que ser convertido no Natal dos irmãos.

 • A alegria comunitária não está no brilho das estrelinhas que se encontram pelas ruas, nem no barulho dos cantos de Natal. A verdadeira alegria está na comunhão dos irmãos que se sentem unidos em todas as horas para celebrarem o que o próprio Senhor pediu: “que todos sejam um, como eu e o Pai somos um “ (Jo 17, 21). A festa do Natal deve tornar-se a festa da grande comunidade cristã.

Com estas quatro dimensões é fácil cada um construir a sua caminhada de Advento com criatividade e com o sentido cristão da vida. Converta cada um o seu Advento em tempo de preparação para o Natal verdadeiro.

4. Aqui na nossa Paróquia estão disponíveis muitas iniciativas que podem ser vividas por qualquer cristão: o retiro em etapas, os encontros de fim de semana em Vale de Lobos, as conferências sobre o actuar com caridade, as noites de reconciliação e as vigílais de oração, tudo são espaços com instrumentos suficientes para celebrarmos o Advento como autêntica preparação para o Natal.

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