A IMPORTÂNCIA DO TEMPO LIVRE – 6 de Junho de 2014

1. O Livro do Eclesiastes tem uma página lindíssima sobre o tempo: “Neste mundo todos têm a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio”. Depois acrescenta: “Há tempo para nascer e tempo para morrer, … tempo de chorar e tempo de rir, tempo para estar triste e tempo para dançar, tempo de procurar e tempo de perder, tempo para guardar, e tempo para deitar fora … tempo para amar e tempo para odiar, tempo para a guerra e tempo para a paz” (cf Ecl 3, 2-8). De facto, ao longo da vida o tempo foge e quase o não aproveitamos para, construirmos sonhos e realizá-los em tempo oportuno.
Ao acordar, todos deveriam perguntar-se sobre o que iriam fazer das horas do dia. Não saber, pela manhã, o que se vai fazer, é profundamente frustrante, fica-se com a sensação de vazio e, ao cair da tarde, tem-se quase a certeza de que tudo se perdeu. Nada pior do que sentir as mãos vazias, depois de um dia altamente cansativo, mas sem nada que concorra para a felicidade procurada. Há muito tempo na vida de cada um:

• Tempo dedicado ao trabalho profissional. São 8 horas com actividade mínima tantas vezes, e com sobras para conversar com os colegas, e a meio ler o jornal e tomar um café.

• Tempo para dar à família. É o diálogo de amor entre marido e mulher que de quando em quando se complica e é a conversa com os filhos, sobretudo os adolescentes, sempre difíceis de compreender.

• Tempo para acompanhar os amigos. As tertúlias, as discussões sobre temas de interesse ou, simplesmente, a conversa descontraída, constituem um alívio nas tensões do dia a dia. Às vezes este tempo é também oportunidade de exercitar a espiritualidade, indispensável a todos.

• Tempo para dedicar ao serviço aos irmãos. No clube, numa intervenção cívica ou, até, na comunidade religiosa de que se faz parte, servir os outros enriquece a vida. Os objectivos comuns e a solidariedade para com uma pessoa em crise, tudo dá um sentido novo ao rolar das horas.

• Tempo para dar a Deus. No silêncio da contemplação, nas palavras repetidas com fé, nos sentimentos que a oração provoca, o tempo com Deus é tempo de crescer ao ritmo da fé.

É cada pessoa, conhecendo as teias das suas actividades, que decide onde envolver o seu tempo. Só organizando-se, distribuindo as actividades pelas horas do dia, se chega ao entardecer com a consciência do dever cumprido: todo o tempo valeu a pena.

2. Mas sobra sempre tempo, embora se não diga. É certo que se repete muitas vezes “não tenho tempo”, mas toda a gente sabe que cada um “faz do seu tempo o que quer”. É com esta certeza que pode falar-se de tempo livre, aquele tempo que cada um liberta para o que lhe parece mais importante, no rolar dos dias.

• Ao fim de semana é preciso não perder tempo. Há inúmeras coisas que não puderam fazer-se ao longo da semana. Então aproveita-se o tempo para ir às compras, fazer desporto, assistir a espectáculos (cinema, teatro, música), visitar museus com exposições temporárias, escolher livros que ficaram por ler ou visitar amigos. No fim de semana, também se pode criar um ambiente de maior intimidade com a família.

• Nas datas especiais a cultura da celebração faz parte da vida. Um aniversário, o final de um curso, a conquista de um emprego, o sucesso num empreendimento difícil, tudo são razões para celebrar. A festa é um encontro de pessoas para gerar felicidade. Estes encontros provocam a reconciliação numa amizade em risco, a descoberta de um emprego que estava ali tão perto, o começo de um namoro que pode resultar em casamento, a simples alegria de estar com gente simpática, sem precisar de falar de economia, de política ou de futebol.

Nas grandes festas de serviço religioso, no Natal e na Páscoa, todo o tempo tem um ritual preciso. No nascimento do Menino Jesus, não falta a consoada, a Missa do Galo e o jantar de família. Na Páscoa todos se reúnem para acolher o “compasso” com a cruz do Senhor a beijar, na visita que faz à casa de cada um. Inventa-se o tempo que vence as distâncias para cumprir tradições seculares. Ninguém se preocupa com o tempo, porque é bom estar ali, recordando muitas outras ocasiões em que a família era maior, mas o amor dos mais próximos era sempre igual.

Saber aproveitar o tempo que se libertou para responder a grandes apelos que nos são feitos pela “vida”, é fonte de alegria ímpar. Vale a pena criar “tempo livre”, tempo que se liberta para responder a momentos únicos de realização pessoal e de afirmação de amor aos outros.

3. Está a chegar o tempo de férias. É bom não o encher com programas. Há pessoas que vêm das férias mais cansadas do que quando saíram. Mas fazer férias não pode ser apenas estar ao sol na praia, ou ficar à sombra das árvores no campo. Utilizar o tempo que é mesmo livre é uma arte extraordinária. Para um cristão, o tempo livre organiza-se em três dimensões: livre para mim, livre para os outros, livre para Deus. É esta a síntese de umas férias em beleza.

• Livre para mim. Eu tenho o dever de criar o meu próprio espaço. Mesmo em casa, cada um tem de conseguir a paz do deserto onde o outro só entra se o merecer. As confidências, a cumplicidade, a intimidade perfeita têm de ser merecidas. Jovem ou adulto, com muito ou pouco saber, mais exigente ou menos, todos têm de encontrar tempo de deserto onde, a sós consigo próprios, se constroem sonhos de realização, de alegria e de paz. Tudo isso oferece-se gratuitamente aos outros.

• Livre para os outros. Aprender a servir os outros, a procurar saber o que eles precisam ou esperam, descobrir a fonte da felicidade dos outros, exige liberdade interior. Se sou livre para os outros, sei esquecer-me de mim, sei ir ao encontro, sei escutar, mesmo sem palavras, quando amo e me prontifiquei a dar sem reservas. As férias permitem serviços que ao longo do ano não tenho tempo para fazer.

• Livre para Deus. Na vida de cada homem está sempre Deus à espera do encontro. Já não é um problema de fé, é, antes, uma garantia de que há sempre alguém que com amor está disponível para nos garantir esse amor. Sou livre para Deus, sei dar-me. Ele recebe-me com toda a generosidade. O encontro pode chamar-se oração ou pode chamar-se simplesmente contemplação. Eu contemplo o que amo e quem me ama. E sei que Deus me ama, por isso O contemplo.

Esta liberdade fundamental ao dar-me permite organizar o meu tempo livre que se vive de outra maneira, mas pode fazer-me feliz.

4. Amar as pessoas no meu tempo livre ou na maneira de libertar o meu tempo, pode ser uma forma de começar a preparar as férias.

P. Vítor Feytor Pinto
Prior

Comments are closed.