SAIR DA ROTINA DE UM ANO – 13 de Julho de 2014

1. Quando se chega a Julho, tem de se conseguir sair do ramerrão de um ano inteiro. Levantar cedo, sair para o trabalho, almoçar à pressa, retomar o trabalho, regressar a casa, dar um tempo breve à família, fazer um serão não muito longo, é o ritmo que se desenrola ao longo de meses e meses, de Setembro a Julho. Depois, deste tempo todo, no mesmo espaço, com as mesmas pessoas, a fazer as mesmas coisas, torna-se necessário sair, procurar outros hábitos, experiências diferentes, novas emoções. É isto “fazer férias”. Há quem faça as “férias repartidas”, mas não é a mesma coisa. Férias de oito dias não chegam a ser férias. Quando se começa a descontrair, logo se volta à actividade normal. As pessoas precisam de tempo para recuperar forças, repensar iniciativas e regressar com entusiasmo para mais um ano.
Ter férias é indiscutivelmente um direito. Na Carta Universal dos Direitos Humanos, fala-se do direito à vida, do direito à informação e à cultura, do direito à assistência em saúde, do direito à verdade e à justiça. O direito mais “interessante”, porém, é o direito ao trabalho, com o direito ao descanso. São os artigos 23º e 24º da Carta das Nações. O problema está em como fazer este descanso.

• Há gente que pode sair para o estrangeiro numa viagem turística, num cruzeiro, numa estadia de Verão ou de Inverno e, até, numa peregrinação religiosa. Tudo isto são coisas caras que não estão ao alcance de todos.

• Há quem vá até à praia ou mesmo até ao campo. Pode ser no Algarve, onde se encontra solução para todos os preços, mas podem encontrar-se praias mais calmas e, por isso, até mais agradáveis. Preferir o campo ou a montanha é, pelo menos, mais tranquilo. Para sair do barulho da cidade, o campo proporciona melhor uma ocasião de paz.

• Em tempo de economias, há quem fique em casa. Um dia dá um salto a uma praia próxima, outro dia saboreia a floresta ali perto e um terceiro dia visita os amigos, que têm uma casa simpática e há muito fazem convites irrecusáveis.

• Há, ainda, quem prefira um retiro de quinze dias, ao sabor inaciano ou com orientadores de grande espiritualidade. Podem recordar-se dias assim em Troussures, perto de Paris, com o Abée Caffarel da Maison de Prières. Que maravilhoso tempo de oração!

• Há os que não podem fazer nenhuma destas coisas porque a sua condição lhes não permite. Saber isto, responsabiliza mais os que fazem férias, para que se lembrem daqueles que não podem tê-las.

As férias são sempre uma dádiva de Deus e, por isso, devem fazer-se com qualidade, não em trabalho ou em despesas, mas em serenidade e paz, para ser, de verdade, um tempo de renovação interior e de enriquecimento na relação com os outros.

2. Deixar a rotina não dispensa programar estes dias. Neste tempo em que vivemos, a primeira questão está em saber quanto pode gastar-se (não vale fazer férias a crédito). Depois, é necessário saber qual o grau de cansaço em que se está (talvez valha a pena ir ao médico e fazer um check-up). A seguir, há que escolher o tipo de férias que se adapte ao estado de saúde e de cansaço (um lugar mais calmo, onde seja possível evitar o barulho e a agitação). Finalmente, conversando com a família, decide-se pelas férias mais compensadoras. É mesmo importante que todos se sintam contentes, nesse tempo privilegiado que é concedido. A partir daqui, procura organizar-se a vida tendo em conta três opções: a relação consigo próprio, a relação com os outros e a relação com Deus. Todas as pessoas preparam tudo isto no convívio com a família e é com ela que se fazem férias.

• Na relação consigo próprio. Cada um organiza-se para ter suficiente tempo de descanso. As horas de sono, os tempos “de não fazer nada”, o tipo de alimentação, os passeios higiénicos, os mergulhos na água, a descontracção total. Acrescente cada um o que julgar necessário. As férias são para o próprio, porque se o não forem, ninguém tem descanso em redor.

• A relação com os outros. Deve ter-se conhecimento claro das pessoas com quem se fazem férias: se é a família, se é um grupo de amigos, se é um terceiro bem-disposto. Quando um grupo de quatro pessoas faz uma viagem de recreio, num automóvel, já se sabe que ao 4º dia entram em tensão, porque o espaço é demasiadamente pequeno. A reconciliação torna-se uma urgência. Consegue-se com a generosidade dos primeiros que são capazes de pedir desculpa e se oferecem para os serviços mais difíceis.

• A relação com Deus. As férias são oportunidade única para dar mais atenção ao Senhor que se ama. Como diz Bernanos, “tout est grâce”, na nossa vida tudo são obras de Deus. Conversar com Ele, ouvir as Suas mensagens, aceitar as Suas exigências, tudo é maravilhoso. A paz cresce dentro do coração e as férias resultam em alegria. Não é preciso muito tempo, é preciso apenas muito amor.

Esta trilogia “Eu, os outros e Deus” define umas férias diferentes, que nos oferecem uma grande paz. Distribuir a actividade por estes três níveis vai permitir uma renovação própria no nosso espaço de umas férias realizadas.

3. Em férias, o desafio da simplicidade talvez seja um slogan a acolher e dinamizar. Foi Jesus no Evangelho que convidou à simplicidade: “Deixai vir a Mim os pequeninos, só aqueles que se fizerem como eles entram no reino dos céus” (Lc 18, 16). Fazer-se pequenino é ser simples como as crianças. Assim, é possível ultrapassar as dificuldades, abrir o coração à reconciliação e à paz, ir ao encontro dos mais pobres e mais abandonados. Os critérios do mundo são complicados porque estão assentes no Ter, no Poder e no Prazer. Os critérios da simplicidade são a partilha, a solidariedade, o serviço generoso e o sacrifício na disponibilidade para os outros. Aproveitar assim as férias irá transformar toda a vida para vencer as rotinas. É um desafio que é feito para as férias diferentes de 2014. É de salientar, durante este tempo, o espírito das bem-aventuranças: ser feliz com um coração de pobre, um coração que perdoa, um coração verdadeiro, justo e sincero, um coração que constrói sempre a paz.
Tenho o gosto de desejar a todos os cristãos e não cristãos, que procuram a Igreja do Campo Grande, umas férias realizadas na simplicidade, tocando de amor toda a gente. Boas Férias e até Setembro.

P. Vítor Feytor Pinto
 Prior

Comments are closed.