VEM, SENHOR JESUS – 30 de Novembro de 2014

1. Ao começar o Advento, tempo de preparação para o nascimento de Jesus, sente-se no ar o grito do Apocalipse: Maranatha, vem Senhor. Foi no Concílio de Niceia, em 325, que a Igreja instituiu a festa do Natal. Só séculos depois, no ano de 600, foi proposto um tempo de Advento com 4 domingos de oração para promover na comunidade cristã, com um espírito novo, a celebração do Natal. Há páginas da Escritura no Novo como no Antigo Testamento que nos falam da chegada do Messias:

· O Povo de Deus, sofrendo o cativeiro da Babilónia, escutava as profecias de Jeremias e de Isaías, que o convidava a ter esperança na vinda do Salvador.

· O profeta Isaías anunciara mesmo o nascimento de Emanuel, dizendo, “eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, ao qual será dado o nome de Emanuel, que quer dizer Deus connosco” (Is 7, 14).

· O mesmo profeta Isaías falava de um tempo novo que iria surgir no qual as espadas seriam convertidas em relhas de arado para lavrar a terra e as lanças em foices para colher o pão (cf Is 2, 4).

· Depois, em Nazaré, a uma jovem que tinha o nome de Maria, apareceu um Anjo que a convidou, por mandato de Deus, a ser mãe do Salvador; e Maria soube dizer sim, isto é, “servirei o Senhor como Ele quiser” (Lc 1, 38).

· Jesus veio então a nascer num curral de animais em Belém; os anjos e os pastores vieram adorá-l’O (cf Lc 2).

· Trinta e tal anos depois, o precursor, João Baptista, nas margens do Jordão, anunciou-O: “eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (…) que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 30).

Neste tempo de Advento, escutando a Palavra de Deus, a comunidade cristã vai entender um caminho maravilhoso, desde a promessa do Salvador, o Messias, até ao nascimento de Jesus, Redentor da humanidade, Luz para todas as nações.

2. O tempo de Advento convida a construir um mundo novo. A sociedade contemporânea perdeu valores e deixou-se contaminar pelo materialismo que a levou ao quase total abandono das referências de uma tradição cristã; pelo individualismo que comprometeu as normais relações humanas, que deveriam ser pautadas pela justiça e pelo amor; pela secularização em que a riqueza da fé e a iluminação da transcendência se perderam completamente no desenvolvimento da sociedade. O Parlamento Europeu recebeu nestes dias a visita do Papa Francisco. Com a clareza que lhe é habitual e a simplicidade que é o seu mote, Francisco foi convidando os deputados europeus a reconstruirem a Europa, desde os montes Urais até ao Oceano Atlântico. Em grande síntese, Francisco apontou a este areópago as grandes linhas de rumo para um futuro diferente. O que pediu o Papa?

· Uma Europa centrada na pessoa. Ultimamente parece ter-se centrado apenas na economia ou nas lutas pelo poder. É urgente dar centralidade à pessoa humana, com a sua dignidade e liberdade, com a sua capacidade de desenvolvimento e de afirmação, com a sua capacidade de se desenvolver, de intervir e de produzir num tempo novo.

· Uma Europa que respeita e promove os valores da pessoa, sobretudo a aceitação do outro, o diálogo com todos, a constante procura do bem comum.

· Uma Europa que respeite e promova a família, constituída de tal maneira que seja elemento fundamental à realização do homem e da mulher e à educação responsável dos filhos nascidos do seu amor.

· Uma Europa que dá atenção ao trabalho, com competência e eficácia; daí a importância de criar emprego, de procurar salários justos, de conseguir actividades que gerem desenvolvimento real.

· Uma Europa com sensibilidade para o meio ambiente, com respeito pela natureza, com sensibilidade ecológica, combatendo o desperdício, não permitindo que bens de consumo sejam deitados fora, para garantir vantagens de lucro.

· Uma Europa que viva em autêntica democracia com a participação responsável de todos na vida da comunidade humana, que integre os imigrantes, que lute contra a pobreza, que se preocupe com os excluídos, que defenda sem limite os direitos da cidadania.

· Uma Europa que compreenda que a fé no Deus em que se acredita é elemento fundamental para o equilíbrio sustentável nas relações entre as pessoas e entre os Estados.

Que bela imagem da Europa o Papa Francisco ofereceu ao Parlamento Europeu! Francisco recolheu palmas infindáveis no final da sua intervenção. Os 750 deputados europeus não se cansaram de o aplaudir. Que grande discurso para o princípio do Advento!

3. O tempo de Advento traz para as comunidades cristãs desafios de grande alcance. Costuma dizer-se que é tempo de chegada, mas todos os cristãos têm que “fazer chegar Jesus”. Também é oportunidade de preparação para a grande festa do Natal. Mas a preparação desejada não está nas luzes da cidade, nos enfeites das montras, ou nos presentes para as crianças. A preparação deve ser diferente, deve ter a marca da espiritualidade. Também é tempo de esperança, mas uma esperança activa que leva cada cristão a tornar-se fonte de expectativa para todos os que sofrem. Assim sendo, poderá perguntar-se como é que o cristão constrói o seu Advento:

· Pela renovação interior que lhe pede mais atenção aos valores fundamentais do Evangelho, levados à prática no ambiente da família, do trabalho ou do convívio social;

· Pela oração intensa concretizada na leitura do Evangelho, nos tempos de silêncio, nos momentos de oração com outros cristãos;

· Pelo compromisso temporal, uma vez que o cristão não é apenas religioso e tem o dever de inserir a riqueza do Evangelho no seu viver quotidiano; só assim dá testemunho de Cristo em toda a parte e poderá dar, àqueles que lho pedem, razão da esperança que há em si (cf LG 31);

· Pelo amor, pelo perdão e pela paz, três palavras-chave para o cristão na proximidade do Natal. Cada gesto, cada palavra, cada atitude têm de ser expressão de amor, convite à reconciliação e construção de harmonia.

Com estes ritmos é possível construir-se um Natal diferente que supera a ideia do consumo exagerado, da beleza simplesmente estética e da ilusão feita às crianças com a figura do Pai Natal.

4. Na nossa comunidade paroquial cada um tem o dever de fazer tudo para poder construir um Advento diferente, autêntica preparação do nascimento de Jesus.

Pe.Vítor Feytor Pinto - Prior

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