TOLERÂNCIA E DIÁLOGO – 18 de Janeiro de 2015

NA SEMANA DA UNIDADE

1. A sociedade actual fala muito da tolerância como elemento fundamental nas relações entre pessoas que são diferentes na origem, na cor da pele, na língua e na cultura. Os movimentos migratórios tornaram fácil a consideração de que todos, em qualquer lugar, são cidadãos do mundo, qualquer que seja o país onde nasceram. Numa reflexão teórica considera-se que são quatro os grandes valores sociais a cultivar para uma verdadeira cidadania: a tolerância, aceitando o diferente; a convivência, convidando a estar com o diferente; o diálogo, reconhecendo que o outro, quem quer que seja, pode trazer mais-valias no encontro fraternal; a solidariedade, querendo tornar seus os problemas do outro. No entanto, apesar de toda esta sensibilidade, avolumam-se hoje os conflitos por causa das diferenças que há entre as pessoas.
Ainda agora Paris foi cenário de uma extraordinária intolerância. Alguns radicais, invocando ofensas à sua religião, invadiram um revista de humor vitimando doze jornalistas. Noutro ponto da cidade, outro extremista barricava-se num supermercado judaico e vitimava quatro dos seus reféns. Pereceram ao todo dezassete pessoas. É muito frágil a tolerância que se proclama essencial na convivência entre os povos. Está em causa, em última análise, o uso da liberdade. Os direitos humanos consagraram a liberdade como valor essencial, mas é preciso também compreender que essa mesma liberdade tem limites.

• A Carta das Nações de 1948 consagra as liberdades e garantias. São 30 artigos que dão à humanidade a esperança de uma sociedade verdadeiramente democrática.

• Entre estes artigos está a liberdade de expressão, a liberdade de religião e de culto, a liberdade de informação, a par do direito à vida, à cultura, à educação, à saúde, ao trabalho.

• No concerto das nações, quantos atropelos a estes direitos fundamentais, atropelos estes às vezes sancionados até pelos parlamentos.

• A liberdade como direito fundamental tem limites naturais que nem precisam de ser definidos. Nunca o uso da liberdade pode pôr em causa a dignidade das pessoas com as suas referências e valores.

• Neste contexto, a liberdade de expressão não poderá nunca magoar convicções culturais e mesmo religiosas que constituem valores essenciais à vida de muitos povos e nações.

Ao cristão exige-se uma atitude crítica para tudo que acontece na cidade, mantendo a distância que lhe permita avaliar os comportamentos colectivos que às vezes podem estar marcados por ideologias ou por interesses. Refira-se, porém, que nunca uma sensibilidade religiosa pode ser motivo para intervenções políticas muitas vezes destruidoras de vidas.

2. As Igrejas cristãs celebram em conjunto entre 18 e 25 de Janeiro a Semana da Unidade. Esta preocupação de reencontro das comunidades cristãs nasceu no século XVIII a partir das confissões protestantes. A Igreja Católica foi sensível a este movimento ecuménico com três etapas fundamentais para a aproximação necessária ao reencontro de todos os que acreditam na pessoa de Jesus Cristo. Leão XIII em 1895, Pio XI em 1928 e sobretudo João XXIII em 1960 abriram caminhos extraordinários ao diálogo ecuménico. Depois do Concílio Vaticano II já foi fácil a Paulo VI e João Paulo II desenvolverem o processo de uma relação profunda entre todas as religiões de inspiração cristã. Se é certo que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nasceu num pastor anglicano, John Mott em 1910, a Igreja aceitou este desafio e introduziu como celebração anual esta Semana para a Unidade dos Cristãos. Há três níveis de diálogo a conseguir:

• O diálogo ecuménico envolve os ortodoxos e os protestantes. Nem uns nem outros têm unidade interna, daí ser mais difícil o diálogo com cada congregação. Apesar disso, João Paulo II criou o “Espírito de Assis” que Bento XVI e o Papa Francisco continuam numa experiência ecuménica notável que se prolonga em inúmeras comunidades cristãs.

• O diálogo inter-religioso tem-se desenvolvido de uma forma extraordinária. Os últimos papas receberam os líderes religiosos judaicos, muçulmanos e das religiões orientais. Os papas não tiveram receio em visitar sinagogas e mesquitas, rezando sempre em conjunto pela paz no mundo. Além disso a Igreja não tem sido alheia ao valor da contemplação que as religiões orientais trazem ao mundo actual.

• O diálogo socio-político também não é alheio a esta preocupação de unidade. Os sinais mais fortes desta preocupação da Igreja foram certamente o encontro do Papa com Shimon Peres e Mahmud Abbas, bem como a influência do Papa Francisco na quase reconciliação entre Cuba e os Estados Unidos.

A preocupação da tolerância do diálogo para a reconciliação entre as religiões e para a reconstrução da Paz tem sido uma constante nos últimos papas desde o Concílio Vaticano II. Por tudo isso, porque tem uma experiência de diálogo, a Igreja pede, não apenas o respeito por cada religião com as suas referências, mas a recuperação dos valores religiosos que cada símbolo contém e que levados à prática tornariam a sociedade mais humana, mais tolerante, mas sobretudo mais fraternal.

3. O espírito de tolerância e de diálogo que inspira esta Semana da Unidade tem necessariamente de ter reflexos. Os cristãos sabem que o novo mandamento é o mandamento do amor (cf Jo 13, 43), mas nem sempre amam; também sabem que o que se faz ao mais pequenino dos irmãos é a Jesus que se faz (cf Mt 25, 40), mas nem sempre respeitam a dignidade do irmão; sabem ainda que Jesus veio para dar a boa nova aos pobres e a alegria aos que sofrem (cf Lc 4, 19), mas nem sempre se dispõem a ir ao encontro dos mais pobres e de quantos na solidão sentem a falta de uma palavra, de um beijo ou de um simples olhar. Se a Igreja é perita em humanidade, como diz o Vaticano II, os cristãos têm o dever de ser os primeiros na tolerância e no diálogo, isto é, na aceitação do outro como ele é e no serviço ao outro sempre que ele precisa. É urgente exercer esta tolerância e diálogo nos ambientes de cada um:

• Na família, através da relação do marido e da mulher, dos pais com os filhos, de todos com os familiares e vizinhos.

• No trabalho, com a competência profissional que também é sinal de amor, com a colaboração e ajuda aos colegas que é sinal de solidariedade, com um sentido de cooperação mesmo com os chefes que também são “gente que precisa de gente”.

• No ambiente social, onde são muitas as pessoas diferentes que deverão ser aceites como são e a quem é preciso responder com delicadeza e generosidade a todas as dificuldades e problemas que passam pelas suas vidas.

É preciso reinventar a tolerância e o diálogo para que ninguém se sinta a mais nas comunidades humanas e todos sejam acolhidos com as mais-valias que podem trazer a um viver comum em sociedade. Só assim se constrói uma sociedade justa e com gente feliz.

4. Na Comunidade Paroquial do Campo Grande todos devemos assumir a tolerância, a aceitação de todos os outros como são. Depois, através do diálogo, vamos sentir-nos membros da mesma família, sabendo que há mais alegria em dar do que em receber.

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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A SEMANA DA UNIDADE

Unidade:

de todos os cristãos

de todos os crentes

de todos os que procuram a verdade

de todos…

. A Verdade não é questão de gosto. Tem de ser procurada. As religiões e as crenças não são todas iguais. Em particular, se Deus se revelou, há que ouvir o que Ele disse.

. Todo o homem sincero merece respeito absoluto. A religião e a crença em Deus devem seer objecto de testemunho e de diálogo, não podem ser impostas. Nem pela lei, nem pelas armas, nem por qualquer tipo de pressão. «Todo o homem sincero merece respeito absoluto». E como só Deus julga as consciências, há que presumir que todo o interlocutor é sincero.

. Há duas maneiras de fazer ecumenismo. A primeira é tentar que os «outros se juntem a nós e procurarmos, depois, ir mais longe. A segunda é convencermo-nos uns aos aos outros a tornar mais viva e mais profunda a nossa fé, a nossa oração, a nossa caridade, a nossa abertura à Palavra. De há trinta anos para cá, este caminho parece promisssor: quando uns e outros vamos mais ao fundo, tem sucedido que nos encontramos.

Pe. João Resina in “A Palavra no Tempo”



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