PARA QUE O MUNDO SEJA SALVO – 15 de Março de 2015

1. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, ao falar da renovação profunda da Igreja, pede que ela esteja “em saída”, para ir ao encontro daqueles que estão muito afastados do projecto de Deus. É uma atitude que pede a todos os cristãos que sejam missionários, isto é, anunciadores da Pessoa de Jesus Cristo, na certeza de que não há salvação em nenhum outro (cf Act 4, 12). Um dos textos mais belos do Evangelho de João é aquele em que se acompanha o diálogo de Jesus com Nicodemos. Nicodemos era sinedrita, mas não deixava de ser um homem inquieto e, mesmo, insatisfeito. Por isso, foi ter com Jesus de noite, na hora da intimidade, para lhe perguntar o que era preciso fazer. Estranhamente Jesus diz-lhe que é preciso nascer de novo. Nicodemos não entende e começa, então, uma conversa que tem afirmações extraordinárias.

• “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu próprio Filho Unigénito” (Jo 3, 16). O mistério da Redenção é um acto de amor. Deus propõe-se levar o perdão a toda a humanidade através do seu Filho, Jesus.

• “Ele não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17). Compreende-se, então, que Deus não é um Deus de castigos como aparece muitas vezes no Antigo Testamento. É um Deus de amor que deseja para todos a salvação.

• “A Luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a Luz” (Jo 3, 19). É este o drama da história da humanidade. Deus persegue o ser humano com o seu amor e muitos continuam a afirmar, no seu egoísmo, os próprios interesses que contrariam a Luz.

• “Quem acredita n’Ele terá a vida eterna” (Jo 3, 15). Esta é a garantia que ultrapassa o tempo. A fé em Jesus Cristo abre definitivamente a porta à Bem-Aventurança.

• “Quem pratica a verdade, aproxima-se da Luz, e as suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 21). Jesus dirá um dia que é Ele o Caminho, a Verdade e a Vida (cf Jo 14, 6), pelo que praticar a verdade é identificar-se completamente com o projecto salvífico de Cristo.

Tudo isto é o “nascer de novo”, um excepcional caminho de Quaresma, para uma Igreja em missão, “em saída”. Qualquer cristão poderá viver em si este diálogo de Jesus com Nicodemos, com a consciência de que só Jesus Cristo é a Luz que pode salvar o mundo atribulado por tanto sofrimento.

2. A preparação do Sínodo Diocesano do Patriarcado de Lisboa tem um lema sugestivo “O sonho missionário é para todos?”. Todos os cristãos estão envolvidos na acção evangelizadora da Igreja. Pelo testemunho de vida, pela partilha do amor, pelos diálogos de amizade, pelos momentos de relação pessoal com Cristo, pela afirmação dos valores do Evangelho, por tudo isto, os cristãos são sempre missionários. O Papa Francisco utiliza mesmo verbos de um dinamismo extraordinário:

• Primeirear – é um neologismo utilizado pelo Papa para dizer que os cristãos têm de ser os primeiros a anunciar Jesus Cristo, Redentor e Salvador. Não se pode ter medo de ser cristão. É urgente confessar a fé com toda a coragem.

• Envolver – é uma exigência de amor da comunidade cristã, que acolhe a todos com alegria, sem os julgar. Cada um pode ter a sua história, mas é recebido na comunidade cristã como sendo o mais importante, somente porque chegou e bateu à porta.

• Acompanhar – é fazer caminho com o outro. De facto, não basta ficar com os primeiros momentos do encontro. É preciso fazer seu o percurso que o outro faz na descoberta progressiva de Cristo, na sedução que Jesus está a provocar naquele que descobre agora o ser cristão.

• Frutificar – já Pedro ouvira de Jesus esta palavra simples “E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc. 22, 31-32). Os que vão chegando à comunidade rapidamente são convidados a tornarem-se missionários também, levando aos seus amigos e conhecidos a Boa Nova de Jesus que acabaram de encontrar.

• Festejar – a comunidade cristã, congregada pela Ressurreição de Cristo, vive sempre em alegria pascal. Então, faz festa em cada domingo na Eucaristia. Faz, depois, festa em cada sacramento que celebra e vive em festa na fraternidade que envolve todos os cristãos.

São estes os grandes critérios para a evangelização do mundo. O ser missionário não permite estar voltado para dentro, na espiritualidade intimista em que cada um quer apenas merecer o céu. Ser missionário exige sair, ir ao encontro dos que não têm fé, tentar revelar que é possível ser feliz, mesmo no meio das dificuldades e que ser solidário com os mais pobres é o que dá sentido profundo à vida.

3. Qualquer comunidade cristã tem como missão ser evangelizadora, isto é, ir ao encontro de todos os homens para os salvar. Reconhece que a cidade onde os cristãos vivem está muito longe do Evangelho de Cristo. Eventualmente, as pessoas ainda acreditam em Deus e muitos ainda procuram as práticas religiosas da tradição. Por outro lado, admiram a intervenção social que a Igreja desenvolve na preocupação pelos mais pobres. Grande número, porém, vive como se Deus não estivesse presente na cidade. Que fazem então os cristãos? Na perspectiva da Nova Evangelização, à luz deste 4º Domingo da Quaresma, pode dizer-se que há algumas linhas de força que dinamizam a acção missionária pedida pelo Papa Francisco:

• Não condenar o mundo – Jesus foi muito claro na sua oração sacerdotal, quando disse “Pai santo não te peço que os tires do mundo … Como Tu me enviaste ao mundo também eu os envio ao mundo” (Jo 17, 18). Seguindo esta súplica de Jesus, os cristãos estão presentes no mundo não para o condenar, mas para o salvar.

• Procurar ser presença de Deus através do amor repartido entre os irmãos – Há muitos marcados pela solidão. Falta amor na cidade. Os cristãos serão nela o sinal do amor que Jesus veio trazer à terra.

• Afirmar que se acredita em Jesus – a confissão da fé não se faz por muitas palavras, nem por orações repetidas. Faz-se por obras concretas marcadas pela justiça, pela liberdade, pelo perdão, pela reconciliação, isto é, pela caridade verdadeira.

• Ensaiar gestos que todos podem entender – se a Igreja é perita em humanidade, os cristãos têm que traduzi-lo em actos concretos: o serviço, a partilha, a solidariedade, a paz, e tantas outras coisas que se tornam sinal no meio do mundo.

• Dar atenção privilegiada aos mais pobres – numa sociedade que cultiva a qualidade de vida, os cristãos preferem dar atenção maior aos que mais sofrem. Lutar contra a pobreza, procurar a igualdade suficiente, reequilibrar as relações através de uma atenção permanente a cada um, pode ser a originalidade do cristão, que cumpre o mandamento do amor. Amar o outro como Jesus o amou (cf Jo 13, 34).

Há muita gente que procura hoje as comunidades cristãs para sobreviver. Não basta responder-lhes, os cristãos são convidados a ir à procura de quantos necessitam de apoio, mesmo sem o terem pedido. Isto é o “nascer de novo” de que fala Jesus no diálogo com Nicodemos. Muitos pedem apoios sociais, os cristãos podem ir mais longe, dando-lhes a conhecer Jesus Cristo, o único que revelou ao mundo ser possível a salvação dos mais pobres, de todos quanto sofrem.

4. A Comunidade cristã do Campo Grande está no meio da cidade. Está numa zona muito bonita de Lisboa, com um jardim de árvores centenárias, com instituições de grande mérito, universidades, grandes hospitais, zonas comerciais de inegável valor. Gostamos muito da nossa cidade. Agora, porque temos um sonho missionário, o segredo está em fazer Jesus Cristo chegar a todos. Para consegui-lo é indispensável o acolhimento a quantos nos procuram, a resposta concreta aos problemas sociais dos mais carenciados, apoio eficaz a quantos estão dominados pela angústia, anúncio da Pessoa de Jesus a quem pode recorrer-se na oração, acompanhamento das pessoas que hesitam no caminho da fé, tudo isto e muitas outras coisas reflectem uma Igreja “em saída” como pede o Papa Francisco.

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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