QUEREMOS VER JESUS – 22 de Março de 2015

1. No Evangelho de João que se lê este ano no 5º Domingo da Quaresma há “uns gregos que tinham vindo a Jerusalém, para adorar, nos dias da festa e que foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia e lhe fizeram este pedido: nós queríamos ver Jesus.” Esta é uma passagem de menor importância no texto do Evangelho que neste domingo se proclama. Tem, porém, um significado profundo para o homem do mundo actual. Há imensas pessoas que andam muito longe da fé cristã e mesmo de qualquer religião, mas que, no meio dos acontecimentos deste mundo, como razão de esperança “querem ver Jesus”. A pessoa de Jesus é fascinante e, por isso, mesmo os que têm dele apenas uma visão histórica, deixam-se cativar e querem conhecê-l’O melhor.

• Quando se luta pela justiça, quer-se ver Jesus – “Ele veio para dar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem” (cf Lc 4, 19). Jesus identifica-se com a justiça, tendo procurado sempre dar a cada um que com Ele cruzava, tudo aquilo a que tivesse direito.

• Quando se é solidário com os mais frágeis, quer-se ver Jesus – Pelos caminhos da Galileia e da Judeia, Jesus parava sempre que encontrava alguém em sofrimento. Cuidava de todos com uma entrega total: curava os doentes, perdoava os pecadores, abençoava as crianças, consolava os que estavam tristes, amava a todos sem distinção.

• Quando se é capaz de estar disponível para toda a gente, quer-se ver Jesus – Jesus não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida. Também pede aos discípulos que aprendam a servir. Ele mesmo, servindo sem condições, quis ser obediente ao Pai até à morte, e à morte na cruz (cf Fil 2, 8).

• Quando se vai ao encontro de alguém que vive em solidão, quer-se ver Jesus – Jesus manifesta-se sempre com palavras simples, com gestos de ternura, com expressões de carinho, com a afirmação de um amor gratuito. Quantos, no tempo de Jesus, encontraram n’Ele o sentido da sua vida, mudando-a radicalmente, de um certo egoísmo para uma generosidade sem fronteiras.

Todos estes que lutam pela justiça, que são solidários com os frágeis, que estão disponíveis para quem os reclama e que rompem a solidão de muitos, todos estes, mesmo sem fé, querem ver Jesus. O Papa Francisco pede para se ir ao encontro das periferias. Os que estão longe da fé cristã são periferia, mas com atitudes de verdade, de justiça, de liberdade e de amor, revelam sempre nos seus gestos que estão à procura de Jesus.

2. O Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma tem outros desafios. A resposta de Jesus à questão que Filipe lhe levantou é de uma grande densidade. Se se quiser parar em cada expressão, compreender-se-á que no fundo Jesus está a explicar aos gregos a sua própria identidade. Jesus revela-se como Filho de Deus, com uma missão extraordinária pela qual dá a vida. Se não vejamos:

• Chegou a hora – por cinco vezes Jesus fala na sua hora, o que quer dizer que se está a cumprir o tempo, definido pelos profetas, para realizar a salvação prometida por Deus através do Messias. Jesus tem consciência de que, para levar a cabo a sua missão, irá morrer na cruz e o tempo está próximo.

• Se o grão de trigo não morrer fica só, mas se morrer dará muito fruto – como os frutos da terra precisam de uma semente escondida, também a missão de Jesus para frutificar pelos séculos, exigiu a sua doação até à morte no Calvário. Se Jesus não tivesse sido crucificado, a Ressurreição não acontecia e o fruto da Redenção ficaria adiado.

• Quem ama a sua vida acaba por perdê-la – Jesus tem uma proposta radical quando diz que o discípulo tem de aceitar a sua cruz, levando-a até ao fim. O discípulo de Jesus não se procura a si próprio, sacrifica tudo para a proclamação da Boa Nova e a construção do Reino.

• Se alguém quiser servir-me, siga-me – Jesus é exigente para quem O encontra e se dispõe a aceitá-l’O em todos os momentos da sua vida. O convite a segui-l’O, feito aos discípulos, e a tantos outros que cruzaram a sua vida com Jesus, continua a ser dirigido a muitos homens e mulheres do nosso tempo. A vocação não é um prémio, ou uma consolação, é uma exigência de vida, que dá felicidade na medida da entrega radical. De alguma maneira cada cristão é chamado a seguir Jesus.

• Quando for elevado da terra atrairei todos a mim – Jesus é claro ao dizer que a salvação é universal. É por isso que ninguém pode ficar descansado enquanto a Boa Nova não chegar a todas as periferias, até aos confins do mundo.

Nesta resposta de Jesus a Filipe, depois do desejo dos gregos de quererem vê-lo, está revelada a sua identidade. Ele é o Filho de Deus, veio para cumprir uma missão, dá a vida para a redenção de toda a humanidade, constrói os fundamentos do Reino de amor e de paz que é urgente construir. Neste tempo de Quaresma, nós todos os cristãos “queremos ver Jesus”, isto é, queremos conhecê-lo melhor, aceitar os seus desafios, e à sua luz mudarmos radicalmente as nossas vidas.

3. No mundo de hoje fala-se muito de motivações, de pedagogia, de actualização permanente. Se estas palavras servem para qualquer ciência, elas são também importantes para o aprofundamento da fé e a melhor relação de cada um com Jesus. Todos os cristãos têm motivos suficientes para viverem a sua fé. Nas catequeses viveram uma pedagogia de iniciação cristã, e, também, ao longo da vida tiveram inúmeras experiências de encontro com Jesus. Poderá, no entanto, perguntar-se quais as metodologias para ver melhor Jesus.

• A Palavra de Deus permite um conhecimento assertivo da pessoa de Jesus. Nos Evangelhos está a sua história, nas Cartas dos Apóstolos a experiência dos primeiros cristãos, no Apocalipse a perspectiva das comunidades nem sempre fiéis.

• A Eucaristia permite a participação profunda em Jesus que nos alimenta no Banquete da alegria pascal. Ele faz-nos assim crescer no amor, na unidade e na alegria.

• O outro, seja ele quem for, é uma presença viva de Jesus com quem se comunica, a quem se ajuda, com quem se partilha. Jesus foi claro ao dizer-nos “o que fizeres ao mais pequenino dos teus irmãos é a mim que o fazes” (Mt 25, 40).

• A oração é tempo de encontro, de diálogo, de experiência vital de Deus. A Jesus falamos quando rezamos, a Jesus escutamos quando lemos a sua Palavra (cf DV 25).

• A Igreja Universal ou a pequena comunidade eclesial em que cada cristão vive, tem também uma presença autêntica de Jesus. Foi Ele que no-lo disse “Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).

Certamente que todos os cristãos querem ver melhor Jesus. A metodologia é fácil, basta recorrer a qualquer destas formas: a Palavra, a Eucaristia, o “próximo” e outras, para facilmente nos encontrarmos com Jesus, com Ele nos relacionarmos e dele aceitarmos os desafios de uma vida cada vez mais cristã.

4. Cada cristão tem à sua volta muita gente que quer ver Jesus. O apelo evangelizador está em que cada um, com uma fé comprometida, queira tornar-se verdadeiramente missionário, levando a que os outros também conheçam o Senhor Jesus. Cada cristão, na nossa comunidade Paroquial do Campo Grande, pode ser como Filipe de Betsaida da Galileia, a quem outros pedem para os ajudar “a ver Jesus”.

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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