A SEMANA MAIOR – ESTÁ PRÓXIMA A PÁSCOA – 29 de Março de 2015

1. Não se conhece a evolução histórica da celebração da Páscoa nas comunidades cristãs. Os judeus celebravam sempre o 14º dia do mês de Nissan, a Ceia Pascal, recordando a libertação do Egipto, após um cativeiro de 400 anos. Jesus quis comer com os discípulos o cordeiro pascal. Subindo a Jerusalém foi preparada uma sala e ali, na maior intimidade, celebrou a sua Última Ceia. No fim da refeição, vivida segundo os rituais judaicos, depois da “4ª libação”, tomou o pão em suas mãos, partiu-o e deu-o aos seus discípulos dizendo: “Isto é o meu corpo”. Depois, repetiu o mesmo gesto com o cálice, dizendo: “Este é o cálice do meu sangue que será derramado por todos, para a remissão dos pecados”. Jesus acrescentou, apenas: “Fazei isto em memória de mim”. Dali partiu, depois, para o Jardim das Oliveiras, onde ficou em oração. Foi então surpreendido pelos soldados a quem Judas o entregou. Assim começou a sua Paixão que o levaria à morte na cruz. Certamente os apóstolos passaram a celebrar anualmente uma Páscoa diferente, não já a Páscoa judaica, mas a Páscoa cristã, recordando a morte e a ressurreição de Jesus.
Desde os primeiros anos do cristianismo, as comunidades cristãs celebram o Tríduo Pascal. Os apóstolos recordavam a vida de Jesus, falavam d’Ele a quantos O reconheciam como Filho de Deus e Redentor, organizavam assembleias para comemorar a ressurreição de Jesus que tinha passado pela terra fazendo o bem. Os Actos contam que os primeiros cristãos viviam unidos na doutrina dos Apóstolos, na fracção do pão, nas orações e punham tudo em comum, de tal maneira que não havia necessitados entre eles. As catequeses, naquelas reuniões, referiam sempre a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Assim começou o Tríduo Pascal.

• Começa, muito provavelmente, com as celebrações pascais no século II. Tendo em atenção a Ceia do Senhor na Quinta-Feira, a Paixão e Morte de Jesus na Sexta-Feira e o Baptismo dos catecúmenos na Vigília Pascal, em que se celebrava também a Ressurreição de Jesus. Tudo isto se vivia na proximidade do dia 14 do mês de Nissan.

• Depois de Constantino, no século IV, com a liberdade de culto concedido aos cristãos, o Tríduo Pascal foi inserido numa grande semana que começa com a memória da entrada de Jesus em Jerusalém. Porque os meninos judeus traziam ramos de oliveira, a Festa dos Ramos no 6º Domingo da Quaresma inicia a Semana Santa, tempo privilegiado para recordar a Páscoa do Senhor. Santo Ambrósio, em 397, refere já o “Triduum Sacrum” e mais tarde, em 430, Santo Agostinho fala do “Sacratissimum Triduum”.

• Através dos séculos, estas celebrações foram enriquecidas com liturgias muito expressivas, com longas orações e até na Idade Média com representações religiosas de alto significado. Surgiram, então, também as grandes procissões: dos Passos, do Encontro e do Enterro do Senhor.

• Na reforma do Concílio do Vaticano II as celebrações litúrgicas foram muito simplificadas, com quatro momentos fundamentais: a entrada de Jesus em Jerusalém (Domingo de Ramos), a Ceia do Senhor (Quinta-Feira Santa), a adoração da Cruz (Sexta-Feira Santa) e a Celebração da Luz e da Água com a afirmação da Ressurreição de Cristo (Vigília Pascal).

Actualmente pode dizer-se que a Semana Santa constitui o tempo mais importante nas celebrações da Igreja e na vida de todos os cristãos. Pode, por isso, perguntar-se como é vivida esta Semana Maior.

2. Viver a Semana Santa com a maior intensidade espiritual é uma exigência para qualquer cristão. Infelizmente, as pessoas aproveitam estes dias da Páscoa para uma viagem que sempre sonharam fazer, para um encontro de amigos, que conseguiram ter uma data comum, para uns dias de descanso na praia ou no campo. Os cristãos conseguirão certamente viver nesses dias o mistério da Redenção operado por Jesus.

• O Domingo de Ramos convida a acompanhar Jesus na sua entrada em Jerusalém. Ao ler a Paixão, na mesma liturgia, recorda-se que a glória está sempre perto do infortúnio. A multidão que aclamou Jesus é a mesma que vai pedir a sua morte, no Pretório de Pilatos.

• A Quinta-Feira Santa tem dois momentos de extraordinária beleza. Na Missa Crismal recordam-se todos os sacerdotes, por quem se pede. Na Ceia do Senhor reafirma-se que só o amor pode salvar. Jesus serve os discípulos, Jesus oferece o seu Corpo e o seu Sangue. Dois grandes gestos de amor.

• A Sexta-feira Santa faz memória da Morte de Jesus. A liturgia conduz os cristãos para a leitura da Paixão, para a oração universal que refere a humanidade inteira, e para a adoração da cruz. Com uma liturgia extremamente simples celebra-se o acto maior da fé cristã, o supremo sacrifício de Jesus ao dar a vida pela humanidade.

• A Vigília Pascal é o ápice de todo um caminho que se vem percorrendo desde o princípio da Quaresma. Celebra-se a Luz que rompe todas as trevas, a água que purifica todas as vidas, o amor de uma Igreja que acolhe os catecúmenos e a alegria porque na Ressurreição Cristo venceu todas as mortes.

A Páscoa está próxima. Será cada cristão capaz de a preparar, vivendo com intensidade esta Semana Maior? É um desafio extraordinário que é feito pela Igreja a todos os que participam da função profética, sacerdotal e pastoral de Cristo. Sacerdotes ou leigos, os cristãos vivem esta semana única, sem dúvida nas liturgias, mas são convidados a vivê-la também na intimidade da sua relação com Jesus, na oração pessoal.

3. Uma comunidade cristã tem nas celebrações da Páscoa o tempo mais significativo da sua vida comum. É urgente que todos se sintam irmãos no mesmo projecto, que todos sejam capazes de ir ao encontro de quem sofre, que todos estejam lado a lado nos momentos mais importantes da vida, que todos sejam um como Jesus e o Pai são um só, que todos partam ao encontro do mundo para levar a Boa Nova da salvação. A celebração da Páscoa ao longo da Semana Maior é a expressão máxima de uma vida comunitária assumida.

• Ser irmãos num projecto comum – foi isto que Jesus pediu aos apóstolos, aos discípulos e a todos os outros no Monte da Ascensão. A Semana Maior afirma esta nova fraternidade.

• Ser capazes de ir ao encontro de quem sofre – sofrer com os que sofrem foi repetidas vezes dito por S. Paulo ao falar das comunidades cristãs. Se são membros uns dos outros, ter compaixão por quem está em sofrimento é fazer seu o problema do outro para o ajudar a levar a sua cruz.

• Partilhar a vida – a característica de uma comunidade cristã está precisamente nisto, em saber pôr tudo em comum: não tanto os bens materiais, mas sobretudo o tempo, a palavra, o olhar, a ternura, o saber e até os bens numa partilha fraterna.

• Que todos sejam um – Jesus condicionou a missão à unidade dos cristãos. Ao falar nesta comunhão de vida disse mesmo “Por isso os outros vos conhecerão como meus discípulos” (Jo 17, 20).
• O sonho missionário – Ide e fazei discípulos em todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Desde sempre a responsabilidade missionária é de todos. O Papa Francisco pede-o expressamente às comunidades cristãs. A Semana Maior é um tempo privilegiado para desafiar todos os cristãos a viver uma “Igreja em saída”.

Transformar a Semana Maior numa oportunidade de renovação profunda é talvez a inovação pastoral mais rica que a Igreja pode propor. Pertence às comunidades saberem descobrir a melhor forma de realizar tão belo projecto de Redenção e Salvação.

4. Que a comunidade cristã do Campo Grande seja capaz de viver com maior intensidade a Semana Santa que agora começa. Que as festas pascais renovem profundamente a acção pastoral da nossa comunidade e permitam uma vida mais exigente no ser cristão de cada um de nós. Que esta semana seja para todos tempos de esperança.

Pe. Vítor Feytor Pinto Prior

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