PÁSCOA, A FESTA DA VIDA – 12 de Abril de 2015

1. Quando em Portugal se viveu a revolução de Abril, houve grupos que, tendo uma certa alergia à Igreja, resolveram transformar a festa da Páscoa em festa da Primavera. Até pequenos costumes que nas aldeias tinham uma tradição assegurada foram substituídos por grandes convívios em que o importante deixou de ser a Ressurreição do Senhor para se converter num simples arraial popular. Felizmente, esses movimentos de regresso ao paganismo foram superados e hoje celebra-se com maior profundidade a Páscoa como Festa da Ressurreição. Este ambiente de alegria pascal, envolvendo toda a natureza, sentiu-se muito este ano na Praça de S. Pedro, em Roma, com o Papa Francisco. Sabemos como, seguindo Francisco de Assis, o Papa é um cultor da natureza, um verdadeiro ecologista. Durante a missa pascal e na bênção Urbi et Orbe pela qual Francisco abençoou o mundo inteiro, a Praça estava cheia de flores. Os católicos holandeses quiseram brindar o Papa com as flores mais belas do mundo. Acrescentaram-lhes também árvores de fruto, onde não faltavam as macieiras, as laranjeiras, os limoeiros, as cerejeiras, que por esta altura do ano têm flores de extraordinária beleza. Foi certamente um hino à Primavera em que a natureza inteira proclamou a alegria da Ressurreição de Cristo. Quem assistiu pela televisão a esta lindíssima celebração pascal, sentiu-se também invadido por este ar de festa, ar de Primavera pelo qual se louvou a Ressurreição do Filho de Deus feito homem.

  As flores, com as formas e as cores mais diversas, emprestaram à Praça de S. Pedro uma harmonia invulgar. Tinha-se a sensação que as plantas entre si dialogavam afirmando sem cessar, com a natureza inteira, a força da vida na Ressurreição.

• Os cânticos, entoados pelo coro da Capela Sistina, permitiam a contemplação de Cristo Ressuscitado e afirmavam também a comunhão fraterna da multidão que acompanhava o Papa.

• Os sorrisos espelhavam-se no rosto de todos. A emoção sentia-se densíssima em quantos participavam na celebração eucarística. Mas quem era filmado pela televisão tinha um olhar tranquilo, um sorriso discreto, tudo revelador de uma grande paz. Todos estavam certos do renascer da vida.

• Os sinos da Basílica de S. Pedro repicaram com ar solene a afirmar que o Senhor está vivo. O som dos carrilhões misturava-se com as palmas da multidão, o proclamar da festa sem fim.

• A voz do Papa, com solenidade extraordinária, pôde então dizer: “Jesus Cristo ressuscitou, o amor venceu o ódio, a vida venceu a morte, a luz afugentou as trevas”.

A Páscoa é sem dúvida a festa da vida. Esta vida sente-se na natureza, que acorda depois do sono do Inverno. Nos cristãos que se alegram depois dos 40 dias de sobriedade e penitência, no coração das pessoas que, ultrapassadas as dificuldades, acreditam que podem ser felizes. É bom viver este tempo de Ressurreição, este tempo de Páscoa.

2. A Festa da Páscoa é diferente de todas as outras festas. Não se resume à celebração da Vigília Pascal, nem muito menos às liturgias que as tradições trazem para o Domingo de Páscoa. A Páscoa prolonga-se ao longo de 50 dias, desde a madrugada da Ressurreição até ao dia de Pentecostes. Durante este tempo os cristãos têm a oportunidade de aprofundar a história da Igreja no primeiro século, através da leitura dos Actos dos Apóstolos. Os Evangelhos relatam os mais importantes momentos em que Jesus se revela Ressuscitado, com a afirmação da vida que é preciso viver com toda a intensidade. Este tempo de Páscoa obriga ao renascer constante para uma vida cristã cada vez mais autêntica.

• Contempla-se a Ressurreição de Cristo reconhecendo-O não apenas no partir do pão, mas sobretudo na verdade do seu corpo que ainda tem as chagas das mãos e do lado, na força do Espírito que Ele oferece aos Apóstolos, na confiança que assegura a todos os irmãos de quem se despede no Monte da Ascensão (Domingo de Páscoa).

• Reconhece-se Jesus Ressuscitado a quem pode aplicar-se o dizer do salmista: “Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia”. Renovados espiritualmente pela Quaresma, os cristãos continuam pecadores. É-lhes assegurado, por isso, um Deus cheio de misericórdia, que perdoa sempre, que espera sempre, que acredita sempre no homem pecador (2º Domingo da Páscoa).

• Sabe-se que Jesus é o Bom Pastor que não se limita a guardar as ovelhas, mas vai à sua frente guiando-as pelos caminhos rectos. Conduzidos pela força que de Jesus Ressuscitado lhes vem, os cristãos dispõem-se a transformar o mundo com uma intervenção eficaz. É sua missão “tratar da ordem temporal orientando-a segundo Deus para que progrida e glorifique o Criador e Redentor” (LG 31) (4º Domingo da Páscoa).

• Afirma-se o Povo de Deus nascido de Cristo Ressuscitado. Jesus disse aos Apóstolos “eu sou a verdadeira vida, e meu Pai é o agricultor” (Jo 15, 1). Acrescentou, depois, que todos lhe estão unidos, mas também estão unidos entre si. Nesta comunhão total é que vive o Povo de Deus que é a Igreja (5º Domingo da Páscoa).

• Pede-se o serviço à vida para que “todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10). Este hino à vida é a expressão máxima da Ressurreição. É preciso defender a vida, promover a vida, servir a vida, porque ela é sempre um valor (6º domingo da Páscoa).

Na proximidade do Pentecostes a Igreja ainda vai celebrar a Ascensão do Senhor. A partir da Ascensão todos os cristãos se assumem como testemunhas de que Cristo ressuscitou, vencendo a morte e convidando todos a participarem na sua vida para sempre.

3. Se se celebra a Festa da Vida, o ciclo da Páscoa tem de viver-se sob o signo da alegria. Não é a alegria barulhenta: é a alegria que é fruto do Espírito Santo. Aliás, no dia da Ressurreição Jesus ofereceu aos Apóstolos o seu Espírito com os seus dons e os seus frutos. O primeiro de todos os frutos é precisamente a alegria. Então, durante estes 50 dias, vive-se em alegria constante, uma alegria serena e pacificadora. É programa pascal:

• Cultivar a alegria, sobretudo através de uma oração contemplativa.

• Levar a alegria a todos os outros, provocando uma relação fraterna dentro da família, entre os companheiros de trabalho e os amigos.

• Ser portador da alegria com pequenos gestos de simpatia, de amizade, de perdão, de ternura.

• Tornar-se fonte de alegria com a partilha de bens junto dos mais pobres ou daqueles que estão mais sozinhos.

• Viver a alegria pascal numa atitude de festa que nenhuma dificuldade pode contrariar.

A Páscoa é a festa da vida, mas esta festa não pode viver-se sem uma alegria constante, fundamentada na certeza da Ressurreição de Cristo.

4. Com a mais profunda comunhão de todos os que participam na vida desta Comunidade Paroquial do Campo Grande, desejemo-nos uns aos outros um tempo pascal cheio de alegria.

Pe. Vítor Feytor – Prior

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