O CAMINHO DE EMAÚS – 19 de Abril de 2015

1. A narrativa da Ressurreição de Jesus, feita nos Evangelhos, tem cenas de uma extraordinária ternura. É a surpresa de Maria de Magdala e das outras mulheres, é a alegria dos Apóstolos reunidos no Cenáculo, é a aceitação generosa dos discípulos perante o mandato que o Senhor lhes confia, ao dizer-lhes “Ide por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mt 28, 19). O episódio dos discípulos de Emaús tem, no entanto, um significado especial. Pode dizer-se que é a história de cada cristão. Os dois discípulos, desiludidos com Jesus condenado à morte e crucificado no madeiro da cruz, abandonaram Jerusalém para regressarem ao campo, onde tinham uma pequena horta que cultivavam com cuidado. Uma vez que Jesus desaparecera das suas vidas, não tinham alternativa se não voltar ao seu trabalho habitual, na casa de Emaús. Quem lê o Evangelho de Lucas pode com facilidade encontrar tópicos que permitem uma reflexão profunda sobre o viver cristão. De facto, como os discípulos de Emaús, qualquer cristão tem na vida cinco etapas até se configurar totalmente com Cristo Ressuscitado.

. O caminho da desilusão – os discípulos de Emaús, ao encontrarem um companheiro de viagem, contaram a desgraça que lhes acontecera e foram lamentando a perda do amigo cujo projecto era apaixonante mas que com a sua morte os desiludira. O cristão tem também muitos momentos de desilusão. Perante uma dificuldade, não encontrando no Senhor a resposta aos seus pedidos, facilmente considera que foi abandonado. Chega mesmo a dizer “que mal é que eu fiz a Deus”.

. O encontro com o desconhecido – Jesus Ressuscitado vai conversando com aqueles homens que só se lamentam. Lembra-lhes as escrituras que profeticamente falavam d’Ele, convida-os a entenderem o porquê da situação difícil que tinham vivido, diz-lhes mesmo que as coisas não vão acabar assim. O coração dos discípulos, porém, continuava fechado. É assim também hoje com o cristão. No meio da dúvida, não compreende a Palavra de Deus, não é capaz de fazer silêncio para discernir, não escuta o conselho de um amigo ou de um orientador espiritual, continua por isso, a afastar-se do Senhor.

. O tempo da simpatia – porque se fizera tarde, os discípulos disseram ao amigo que ia com eles: “fica connosco porque anoitece”. E Jesus entrou com eles em casa. Também o cristão, nas noites do seu sofrimento, acaba por compreender que Jesus o não abandona. Talvez no começo só por simpatia, continua a orar, deixa que Jesus entre no seu coração e a pouco e pouco retoma a esperança.

– O partir do pão – é este o momento mais forte do encontro de Jesus Ressuscitado com os discípulos de Emaús. Sentados à mesa, compreenderam, naquele gesto de partilha habitual em Jesus, que o amigo era mesmo o Senhor Ressuscitado. O cristão ultrapassa as dificuldades quando aceita repartir o seu pão com os mais pobres, com os que mais sofrem, quando se senta à mesa da Eucaristia, vínculo de amor e banquete de alegria, quando se deixa envolver pela pessoa de Jesus Ressuscitado. Compreende, então, que Ele está vivo e n’Ele todas as dificuldades podem ser vencidas.

. O caminho do regresso – os discípulos de Emaús já não tiveram medo da noite e correram a Jerusalém para dizer aos Apóstolos “Vimos o Senhor”. A resposta a esta boa notícia foi simples “Ele também apareceu a Pedro”. Para o cristão, a certeza da Ressurreição de Cristo permite-lhe vencer todas as dificuldades. Partilhando esta alegria na comunhão eclesial, torna-se ele próprio anunciador da Boa Nova do Evangelho. O Senhor está vivo e com Ele tudo pode ressuscitar.

Neste terceiro domingo da Páscoa, a cena dos discípulos de Emaús domina toda a reflexão cristã. Não temos neste episódio apenas a prova da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo ou o processo de renovação pessoal. O lado mais belo do Caminho de Emaús está certamente na exigência de que com Jesus Ressuscitado todos os cristãos assumem a responsabilidade de ressuscitar o mundo através da comunidade – Igreja.

2. O Papa Francisco fala muito na necessidade de desprivatizar a fé. Muitos pensam que a fé em Jesus Cristo Ressuscitado é um valor maravilhoso apenas da intimidade de cada um, sem qualquer influência nos ambientes em que se vive. De facto, respeita-se a fé dos cristãos mas não se admite que eles possam intervir enquanto tal, nas circunstâncias concretas da ordem temporal. A página do Evangelho de Lucas em que se conta a história dos discípulos de Emaús, para além de convidar a uma reflexão pessoal, faz um apelo à responsabilidade comunitária do cristão. O mundo actual tem inúmeras razões para cultivar a desilusão. Necessita, porém, de reconhecer os valores que podem transformar o mundo e que nos foram anunciados por Jesus Cristo. É por isso que cada cristão, uma vez convertido, tem de confirmar os seus irmãos (cf Lc 22). Na cena de Emaús, os dois discípulos, depois de reconhecerem Cristo ressuscitado, tiveram a necessidade de partir ao encontro da pequenina comunidade de Jerusalém para ali anunciarem a Ressurreição. Não guardaram esta boa nova para si, sentiram a necessidade de contagiar os outros com esta boa notícia que era razão de esperança.

. O tempo da desilusão – o mundo de hoje está dominado pelo negativo. As boas notícias não são notícia. Os jornais, a rádio e a televisão só contam as desgraças que trazem inúmero sofrimento ao mundo. A humanidade está dominada por uma profunda desesperança. Perante fenómenos como o do estado islâmico, da pobreza do mundo, ou da perseguição aos cristãos, todos se perguntam como é que isto vai acabar. Há uma certa angústia colectiva, caracterizada pela falta de valores essenciais à transformação do mundo.

. O desafio da misericórdia – é urgente que todos os responsáveis se sentem à mesa para com Cristo repartir o pão. Repartir o pão é garantir o respeito pela dignidade humana, a afirmação da justiça, a capacidade de ser solidário, o abrir de caminhos de amor e de paz. O Papa Francisco, na Bula em que institui o Ano Jubilar da Misericórdia, faz apelos aos responsáveis do mundo, pede que acabem os crimes, que se vença a corrupção, que se abram encontros de diálogo, que se responsabilizem os governantes. É também isto o sentar-se à mesa e repartir o pão.

. O regresso à unidade e à comunhão – de muitas maneiras a humanidade tem tentado uma relação fraterna entre as nações. A ONU, a UNESCO, a União Europeia, são, entre outras, formas de procura da unidade. É, em última análise, uma tentativa de reconciliação entre os homens, os grupos e as nações. O regresso à comunidade de Jerusalém, na cena dos discípulos de Emaús, constitui um convite a que as pessoas se reencontrem na unidade. Só em Cristo Ressuscitado, com os seus valores, isto poderá ser alguma vez possível.

Quando se ouve o Papa Francisco, facilmente se compreende que não se dirige apenas à Igreja. Fala para o mundo, para que o mundo seja melhor. Como ele tem gestos de misericórdia, de reconciliação e de paz, também as comunidades cristãs e cada cristão enquanto tal têm que tornar-se “peritos em humanidade”.

3. Apenas 4 notas para a reflexão pessoal de cada um:

– quais as nossas desilusões;

– como as confrontamos com a Palavra de Deus;

– como nos sentamos à mesa a repartir o pão com Jesus;

– como nos reintegramos na comunidade cristã, suporte da fé e compromisso social.

Que este tempo de Páscoa seja tempo de vida comunitária marcada pela Ressurreição.

Pe. Vítor Feytor Pinto -Prior

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