SER BOM PASTOR, UMA VOCAÇÃO – 26 de Abril de 2015

1. No Evangelho de João, há páginas reveladoras da grande ternura de Deus para com o homem. A alegoria do Bom Pastor é uma delas. Jesus intitula-se Bom Pastor. Esta imagem era fácil de compreender pela gente mais simples que o seguia. Jesus queria revelar-se plenamente disponível para todos, acolhendo quantos o procuravam. Tinha o desejo de responder aos seus apelos. Cada expressão que o evangelista coloca na boca de Jesus é de uma ternura sem paralelo e permite saber que Jesus está sempre à disposição de todos. Percorrendo o texto evangélico, facilmente se compreendem as atitudes que Jesus tem: são as normais formas de um pastor se relacionar com as suas ovelhas. O Bom Pastor não é mercenário, querendo tirar lucro das ovelhas que acompanha. O Bom Pastor não é indiferente perante uma ovelha que adoece ou se extravia. O Bom Pastor não é um estranho que só cuida das ovelhas pela pressão que alguém sobre ele exerce. O Bom Pastor não é negligente, descuidando-se por preguiça ou por falta de interesse. O Bom Pastor tem características próprias:

• Conhece as suas ovelhas – o verdadeiro pastor apercebe-se da vida de cada ovelha que constitui o rebanho. Não se limita a garantir o seu número, mas preocupa-se com cada uma, porque lhe não é estranha. Cada ovelha faz parte da vida do pastor.

• Chama-as pelo seu nome e elas escutam a sua voz – quem acompanha a vida pastoril apercebe-se da intimidade que o pastor cria com cada ovelha a que ele próprio deu o nome.

• Vai à frente delas e elas seguem-no – é um erro pensar que o que cuida das ovelhas é um disciplinador, que vai atrás corrigindo-as e castigando-as. O verdadeiro pastor vai à frente e as ovelhas com confiança seguem-no sem medo.

• Vai à procura daquela que se perdeu – é normal que uma ou outra ovelha se extravie. O pastor dá pela sua falta, deixa as outras ovelhas no aprisco e vai à procura pelos desfiladeiros daquela que se perdeu, até a encontrar.

• Pondo-a aos ombros, trá-la para o redil – longe de repreender a ovelha perdida, acolhe-a, conforta-a, dá-lhe o apoio do rebanho. É quase um gesto de perdão.

• É seu desejo: que haja um só rebanho e um só pastor – é este o grande sonho do verdadeiro pastor, a unidade do seu rebanho de tal forma que nenhuma ovelha se perca.

A alegoria do Bom Pastor revela a importância do serviço generoso e sem fronteiras à comunidade de que se tem a liderança. E é através da proximidade, da entreajuda, da entrega ao outro e até da capacidade de perdão, que se vai construindo uma comunidade viva.

2. Esta página do Evangelho, ao falar do Bom Pastor, aparece como definindo o modelo de sacerdote e de outros consagrados, sobretudo nesta semana de oração pelas vocações. Todo o consagrado e sobretudo o padre, quando à frente de uma comunidade, assume-se sempre como o Bom Pastor.

• Estabelece com as pessoas uma relação de proximidade: acolhe toda a gente, chama cada um pelo seu nome, tenta acompanhar as suas alegrias e sofrimentos, está sempre presente.

• Acompanha cada pessoa fazendo seu o problema de cada um: é por isso que no mesmo dia vive momentos de festa e tempos de angústia. Preside a um baptismo ou a um casamento, para logo depois visitar um doente ou acompanhar um funeral.

• Vai à frente envolvendo cada um nos projectos pastorais que trazem inovação evangelizadora: não tem medo de arriscar, com respostas mais ousadas, aos desafios pastorais. Sendo fiel à comunhão eclesial, abre portas reveladoras de uma “Igreja em saída”.

• Oferece o perdão aos que se afastaram: tem especial carinho para quantos, pelas razões mais diversas, foram perdendo a fé, ou se envolveram em situações que os levaram a considerar-se fora da Igreja. Porque esta é de todos e para todos, e há um especial cuidado com os que de novo se aproximam.

• Introduz na comunidade: os baptizados, quaisquer que sejam os seus caminhos, são membros da Igreja. É por isso que os pastores são chamados a ser com eles solidários, qualquer que seja o seu problema e sempre sem os julgar.

• Corre riscos: quantas e quantas vezes o responsável de uma comunidade cristã é mal julgado, menos apreciado, quase marginalizado: ainda assim, continuará a ser, à imagem de Jesus, Bom Pastor.

Nesta semana de oração pelas vocações sacerdotais e missionárias, em pleno ano dos consagrados, é a Igreja inteira que deve estar unida para garantir aos Bispos, aos Sacerdotes, aos Diáconos, a todos os consagrados, a sua gratidão, o seu carinho, o seu amor.

3. Ser Bom Pastor não é exclusivo dos sacerdotes e dos consagrados. Também os leigos devem ter o espírito e a prática dos Bons Pastores, isto é, de acolherem, de acompanharem, de compreenderem e de servirem. Muitos leigos deverão assumir-se, no seu meio, como autênticos Bons Pastores.

• Os pais, em família, na educação integral dos seus filhos.

• Os gestores, nas empresas, no exercício da justiça e do amor para com todos os trabalhadores a qualquer nível.

• Os professores e outros educadores, junto das crianças, dos adolescentes e dos jovens que acompanham.

• Os profissionais com tarefas de coordenação, junto de todos aqueles que estão envolvidos no mesmo trabalho ao serviço do bem comum.

• Os agentes sociais, na sua preocupação de resolverem os problemas dos mais pobres.

• Os líderes das diversas associações de solidariedade ou de outras formas de participação, como associações e clubes, para ajudarem todos a saber viver em cidadania.

• Até os políticos, na preocupação de estarem ao serviço do povo por quem têm responsabilidade, na medida em que por ele foram eleitos.

Afinal, ser Bom Pastor é responsabilidade de todos os cristãos que se assumem como transformadores da ordem temporal. Certamente que as qualidades de Jesus, como Bom Pastor, devem ser vividas por quantos, na Igreja e no mundo, são chamados a mudar o rumo das coisas.

4. A nossa oração, nesta semana de oração pelas vocações, envolve toda a comunidade. Que nesta Paróquia possam surgir muitos que se consagrem mais e mais ao serviço da Igreja e do mundo.

P. Vítor Feytor Pinto
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