CAMINHO SINODAL NA IGREJA DIOCESANA – 31 de Maio de 2015

1. No Domingo da Santíssima Trindade celebra-se, no Patriarcado de Lisboa, o Dia da Igreja Diocesana. Todos os cristãos que vivem nesta porção do povo de Deus têm oportunidade de afirmar-se membros de uma comunidade que intervém na cidade dos homens, com os valores cristãos e os critérios do Evangelho. A Igreja não está fora do mundo, bem pelo contrário. O Senhor foi claro em dizer, na oração sacerdotal: “eles estão no mundo mas não são do mundo, como Eu também não sou do mundo. Pai Santo, como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os envio ao mundo, não quero que os tires do mundo, mas que os livres da maldade. Santifica-os na verdade.” (cf Jo 17, 15-18). Uma Igreja presente no mundo é uma comunidade “em saída” para ir ao encontro de todos os outros, sobretudo os que estão na periferia da sociedade ou à margem da fé. É, então, objectivo dos cristãos inseridos numa Igreja de “portas abertas”, redefinirem-se no que lhes é essencial: estarem em plena comunhão com Cristo; lutarem pela dignidade e liberdade de todos os homens; assumirem como grande mandamento o amor, e preocuparem-se em todas as circunstâncias por serem felizes e fazerem os outros felizes (cf LG 9). Será que a Igreja é capaz de percorrer este caminho? Para consegui-lo tem que afirmar a sua identidade como una, santa, católica e apostólica.

. Una – a unidade é elemento fundamental na vida da Igreja, condição essencial de Evangelização. O próprio Jesus o disse: “que todos sejam um, como Tu Pai e eu somos um, e por isto o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17, 21).

. Santa – a santidade é pedida a todos e só se consegue “na plena e perfeita comunhão com Cristo” (LG 50). Já o Senhor o dissera no Discurso da Montanha: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48). Ser santo como Deus é santo é um desafio para todos os cristãos.

. Católica – a universalidade é a proposta feita por Cristo aos Apóstolos quando deles se despediu: “Ide por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mt 28, 19). Tem razão o Papa Francisco quando afirma que o sonho missionário é de todos e para todos. A Igreja tem as portas abertas a toda a gente e vai ao encontro daqueles que se afastaram.

. Apostólica – a missão compete a todos os cristãos. Todos os baptizados têm o dever de irradiar a fé: levar o nome de Jesus a toda a parte, revelar o ser cristão no constante testemunho da vida. O cristão não deixa, porém, de ter muitas oportunidades para anunciar expressamente Jesus Cristo Ressuscitado como Redentor e Salvador. É isto que o torna apóstolo.

Depois de 2000 anos de história e após o Concílio Vaticano II, a Igreja ainda continua a ser apenas a “sociedade dos verdadeiros cristãos” (Concílio de Trento)? Hoje sabemos que a Igreja é muito mais, é o Povo de Deus que peregrina no tempo para anunciar Jesus Cristo como o único em cujo nome pode haver salvação.

2. O Patriarcado de Lisboa, neste tempo de Nova Evangelização, quer assumir as características que o Papa Francisco reclama para a Igreja na sua renovação “inadiável” (EG 27). Também a Igreja local que é a
Diocese de Lisboa tem como grande paradigma o do serviço aos outros, sobretudo os mais pobres, visando todas as periferias. Por outro lado, sente-se no território da Diocese a urgência de revelar Jesus Cristo. A fé não é uma atitude exclusivamente pessoal, não pertence apenas à vida privada de cada um, pede o testemunho claro em todas as circunstâncias. Finalmente, uma diocese em renovação e em chave de evangelização tem necessariamente de empenhar-se na acção social, como forma explícita da confissão de fé. É tudo isto que se sente no Dia da Igreja Diocesana e é por aqui que passa o caminho sinodal que a todos envolve. Há perspectivas que neste caminho se não podem ignorar. Que Igreja se deseja no Patriarcado?

. Uma Igreja missionária: numa cidade que perde o sentido de Deus, que volta as costas aos valores cristãos e quase abandona a espiritualidade e a religião, todos os membros da Igreja têm a responsabilidade de anunciar a Pessoa de Jesus Cristo, única e verdadeira fonte de salvação.

. Uma Igreja ao encontro das periferias: o Papa Francisco não se cansa de pedir uma “Igreja em saída” para ir ao encontro dos que estão mais longe. Nas periferias estão os pobres, os idosos, os doentes, os imigrantes, os marginais, mas também aqueles que perderam a fé e que se afastaram totalmente da Igreja.

. Uma Igreja que faz opção pelos mais frágeis: como seria possível esquecer as crianças, os deficientes, os sem-abrigo, os presos, ou os que todos consideram pecadores. Foram todos estes os escolhidos por Jesus. São estes que a Igreja quer privilegiar.

. Uma Igreja de testemunho: aliás, foi este o pedido de Jesus ao despedir-se dos discípulos no Monte da Ascensão, quando disse “sede minhas testemunhas em toda a parte” (Act 1, 8). Ser testemunha é compreender e acolher toda a gente, mas é também anunciar Jesus sem medo, em toda a parte, pelo exemplo e pela palavra oportuna.

. Uma Igreja com acção social: o Papa Francisco afirma que a confissão de fé se faz pela acção social (cf EG, 4º cap). A organização da caridade supõe a organização dos serviços de ajuda aos que mais precisam. É, em última análise, a concretização de uma forma organizada das 14 Obras de Misericórdia “dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar pousada aos peregrinos, vestir os nus…”.

. Uma Igreja sem medo da intervenção política: desde o Concílio Vaticano II que se afirma a responsabilidade dos cristãos na ordem temporal. Urge então denunciar o que está errado, sobretudo no que toca à verdade, à justiça e à liberdade; é preciso também aceitar responsabilidades políticas, fazendo que toda a acção na cidade dos homens seja pautada pelos valores cristãos; importa, finalmente, correr os normais riscos de incompreensão, mas manter a fidelidade às propostas do Evangelho. Já Pedro dizia no Sinédrio de Jerusalém, “não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos” (Act 4, 20). Os critérios do Evangelho iluminam toda a realidade da cidade dos homens.

A caminho do Sínodo, à luz da Evangelii Gaudium, os cristãos do Patriarcado de Lisboa querem assumir ser missionários para “levar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos oprimidos, a liberdade aos cativos, a vista aos cegos e a alegria aos que sofrem e, assim, instaurar o tempo da reconciliação e da paz” (Lc 4, 18-19). Esta é a missão dos cristãos.

3. Em comunhão com o nosso Patriarca, D. Manuel Clemente, a comunidade paroquial do Campo Grande também quer viver a caminhada catecumenal. Para isso organiza-se sempre mais para viver em comunidade, aprofundar a fé, anunciar Jesus Cristo Ressuscitado, ser solidário com os mais pobres, procurar transformar a cidade dos homens e, com tudo isto, ser cada um mais feliz e fazer os outros felizes também.

P. Vítor Feytor Pinto
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