FAZER DA VIDA UM SERVIÇO – 27 de Setembro de 2015

1. Caiu-me nas mãos, oferecido por uma grande amiga, um livro italiano com um título fascinante: “Alegremente: quando servir é um prazer”. Evoca-se a vida de um sacerdote vicentino, académico, biblista de renome que dedicou toda a sua vida à cultura e ao serviço dos mais pobres. Ao ler o testemunho de quantos o conheceram e com ele conviveram, entende-se o título escolhido para o livro. A alegria era a marca da sua vida, o serviço era a principal das suas opções, e o prazer de estar disponível para os outros era a sua realização total. Não conheci este sacerdote senão por interpostas pessoas. Mas constitui uma figura que pode ser modelo para quem, como cristão, quer “fazer do serviço um verdadeiro prazer”. Foi Jesus que convidou os discípulos a serem sempre servidores.

. “Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida” (Mc 10, 45). Jesus deu sempre o exemplo, fazia-se próximo de todos, sobretudo dos que estavam em sofrimento.

 “Quem quiser ser o primeiro, faça-se o último e o servo de todos” (Mc 9, 35). O desafio que Jesus faz aos discípulos é de singular importância. Para os cristãos, em relações humanas, os outros ocupam sempre o primeiro lugar.

. “Dei-vos o exemplo, para que como eu fiz façais vós também. Sirvam-se sempre uns aos outros” (Cf Jo 6). Depois de lavar os pés aos Apóstolos, em ritual que iniciava a Última Ceia, Jesus afirma claramente que só pelo serviço se pode ser seu discípulo.

Servir e dar a vida é mesmo um lema para os cristãos conscientes, livres e responsáveis. Jesus convidava os seus a serem humildes, a não levarem nada para o caminho, a darem a paz em qualquer casa onde entrassem. Esta liberdade interior apareceu sempre nas palavras de Jesus como uma forma de realização. Servir é sinónimo de dar a vida. E a vida dá-se aos outros, servindo com a generosidade de coração.

2. Se o paradigma do ser cristão é o amor universal, então, não bastam as palavras, por generosas que sejam; exigem-se actos de misericórdia e de ternura a que todos os outros sejam sensíveis. Este Ano Pastoral de 2015/2016 traz apelos extraordinários ao serviço, como melhor expressão do amor: o Jubileu da Misericórdia que convida a multiplicar perdão e ternura; a visita da Virgem Peregrina, ela a Serva do Senhor, que aceitando a vontade de Deus se tornou co-redentora de toda a humanidade; o Sínodo da Família, que convidando a repensar as relações na intimidade da casa, faz apelo a um serviço constante em todas as relações humanas. Poderá perguntar-se o que é pedido ao cristão, neste âmbito do serviço. Responder-se-á que o servo não é mais do que o seu senhor e que como Jesus serviu, também o cristão deve sentir alegria em servir.

. Servir a palavra humana – Vive-se hoje num mundo de barulho insuportável, mas também num mundo de silêncio ruidoso. Há imensa gente em solidão. Ao cristão compete ir ao seu encontro oferecendo-lhe a sua palavra em companhia que o faz feliz. O falar com os outros inicia uma tarefa mais difícil, a de estar com os outros.

. Servir a Palavra de Deus – a Carta aos Hebreus refere que “Tendo outrora Deus falado aos nossos pais pelos profetas, nestes tempos que são os novos, fala-nos por Jesus Cristo, Seu Filho, Palavra de Vida” (cf Hb 1, 2). A Palavra de Deus não pode estar enclausurada, é preciso que actue em toda a parte. São os cristãos que testemunham a Palavra pela sua própria vida e proclamam a Palavra, anunciando o Evangelho em todas as situações. Anunciar Jesus Cristo, Palavra Viva constitui a melhor forma de evangelizar.

. Servir o pão – num tempo em que todos se preocupam com o desenvolvimento, há muitos que têm fome. É o drama dos refugiados, dos imigrantes, dos sem-abrigo, quantas crianças à míngua de pão. Os cristãos, que pedem na oração o pão nosso de cada dia, são convidados a oferecer a muitos outros o pão de cada dia que não têm. Servir o pão é um gesto essencial de solidariedade.

. Servir o Pão do Céu – a Eucaristia instituída por Jesus como fonte de vida eterna. Ela é também remédio para os enfermos e alimento para os mais fracos. Não basta ao cristão a participação constante no Corpo e no Sangue de Jesus; é missão ajudar o maior número possível de pessoas a participarem também deste pão que dá a vida. Celebrando a Eucaristia recorda-se a Paixão e Morte de Jesus, a expressão máxima de um serviço de amor. A evangelização alimenta-se na Eucaristia. O Pão do Céu que se recebe é o pão que quer dar-se a toda a gente.

. O serviço aos outros – “Dou-vos um mandamento novo que ameis” (cf Jo 13, 34). O amor traduz-se no serviço, indo ao encontro do outro na sua necessidade concreta. Este serviço realiza-se em acções espontâneas, mas é mais forte quando se consegue uma acção organizada. Ser solidário através de uma organização que responde aos problemas concretos das pessoas, traduz-se num serviço verdadeiramente eficaz.

Ao iniciar o caminho do novo Ano Pastoral, a palavra serviço pode constituir o “slogan” para todas as acções. Quer a profecia, quer a liturgia ou a socio-caridade; tudo na Igreja exige serviço e é no serviço que se realiza.

3. “Há mais alegria em dar do que em receber”. A dádiva quando oportuna é sempre um serviço redentor que, por isso, traz alegria. Tem razão o título do livro que me foi oferecido: “Alegremente: quando servir é um prazer”. Convidam-se todos os paroquianos do Campo Grande a descobrirem formas concretas de serviço na nossa comunidade paroquial. Ao ritmo semanal, com maior ou menor frequência, mas de uma maneira organizada, irá cada um sentir uma enorme alegria no serviço que lhe for confiado. O serviço implica sempre um outro, e o prazer está exactamente nisso: por uma pequena palavra, ou um pequeno gesto, o outro que me foi confiado fica mais feliz. Esta partilha de serviços torna a comunidade paroquial um oásis de alegria.

Pe. Vítor Feytor Pinto
Prior

 

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