NOS 50 ANOS DO CONCÍLIO VATICANO II-13 de Dezembro de 2015

1. Quando João XXIII chegou ao Supremo Pontificado, os cristãos do mundo inteiro aperceberam-se de que alguma coisa iria mudar na Igreja. O Cardeal Roncalli, eleito Papa em 1958, era um homem diferente. Como Núncio Apostólico em vários países, sobretudo em Paris, adquirira uma extraordinária relação com o mundo que acabara por conhecer profundamente. Como Arcebispo de Veneza, tinha a sensibilidade apurada de quantos vivem naquela cidade em que o mar dialoga com a terra. Tinha também uma personalidade forte, aliada a muita sabedoria com um extraordinário sentido de humor. Foi por tudo isso que, ao ser eleito Papa, se propôs convocar um Concílio. O mundo do após guerra mudara profundamente e a Igreja tinha o dever de acompanhar as grandes transformações que nele se haviam operado. João XXIII disse-o repetidas vezes: é preciso ir ao encontro do mundo para o transformar à imagem de Cristo Senhor. Quem se lembra do Bom Papa João, ao menos pela narrativa histórica que dele se faz, dá-se conta de que, sendo um homem de diálogo, desejava que a Igreja se relacionasse com um mundo diferente que estava a chegar à humanidade. A década de sessenta, no século XX, foi o tempo das grandes transformações: na política com as descolonizações, na música com os Beatles, na ciência com a viagem à lua, nos jovens com o Maio de 68, e em tantas outras coisas. A Igreja não podia ficar alheia a tantas mudanças. João XXIII convocou o Concílio. Nele foi possível:

. Repensar a maneira de ver a Igreja, não como uma sociedade dos verdadeiros cristãos, mas como o Povo de Deus que se refere a Cristo, que luta pela dignidade e liberdade humanas, que tem o amor como o mandamento novo e procura a felicidade para todos. É a Lumen Gentium.

. Levar a Igreja ao encontro do mundo, com todos os problemas que ele tem, colocando-o incondicionalmente ao serviço do homem, na verdade, na justiça, na liberdade, no amor e na paz. O grande objectivo é fazer o ser humano feliz, respeitado em todas as situações, quer na sua actividade quer na comunidade que constitui com todos os outros. É a Gaudium et Spes.

. Entregar toda a acção a realizar no mundo a Cristo, Senhor e eterno sacerdote, afirmando a Eucaristia como o centro da vida cristã, mas sendo ela o sinal da unidade, o vínculo do amor, o banquete de alegria pascal e o memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo. É a Sacrosanctum Concilium.

. Convidar à oração, verdadeiro diálogo com Deus sobre a vida quotidiana, sabendo que Ele responde através da Palavra que contém a síntese de toda a espiritualidade. É a Dei Verbum.

São então quatro as grandes constituições do Concílio Vaticano II, orientadoras da vida da Igreja. Esta renovação tem-se feito lentamente. Cada Papa, à sua maneira, vai caminhando para uma Igreja que responde ao mundo. Por isso o Papa Francisco vem afirmando que a Igreja deve estar em tudo, para ir ao encontro de todos, anunciando-lhes Jesus Cristo como Redentor e Salvador.

2. Uma das linhas conciliares de maior importância foi certamente aquela em que se recomenda aos leigos que “tratem da ordem temporal e orientando-a, segundo Deus, para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor” (LG 31). Uma Igreja centrada apenas na sua dimensão religiosa seria uma Igreja sem intervenção na realidade. Por isso, o Concílio definiu os campos onde a acção dos cristãos é fundamental para a transformação da sociedade. Quais são esses campos? 

. A família – sendo a célula fundamental da sociedade, é também a comunidade de pessoas que está ao serviço da vida para a transformação da humanidade (FC 3). A família carece de valores cristãos fundamentais: o amor conjugal, a fecundidade generosa, a fidelidade até à comunhão plena, para a felicidade de todos. 

. A cultura – há estilos de vida que se caracterizam pela atenção aos valores do Evangelho. Por isso, os cristãos têm uma forma própria de estar no mundo, seguindo valores que provocam a serenidade, a paz e até a felicidade. A fé traz ao ser humano uma nova maneira de viver, o que proporciona depois uma relação mais bela com todos os outros. 

. A realidade económico-social – o bem comum reclama uma atenção privilegiada de todos para a dimensão social do ser humano. A este se deve dar sempre a prioridade. É da responsabilidade de cada um ir ao encontro do outro, de todos os outros, para os fazer felizes. Daí a preocupação com a gestão dos bens, a administração económica, a atenção aos mais pobres, para assegurar a todos o nível de vida com a qualidade indispensável. 

. A responsabilidade política – a intervenção na vida da cidade é uma atitude fundamental do cristão. Não pode ficar-se à margem dos acontecimentos. O cristão tem o dever de intervir, para na causa pública se garantir uma sociedade mais justa e fraterna. 

. A concessão da paz – a harmonia entre os homens construindo a paz a nível das nações é objectivo indispensável na cidade. Saber acolher, compreender, escutar, perdoar, reconciliar, aproxima as pessoas até à unidade possível. São parâmetros indispensáveis para assegurar, diariamente e em toda a parte, a paz urgente.

Com estes cinco programas, o Concílio Vaticano II desafiou os cristãos a irem ao encontro do mundo para o transformar, convidando todos a instaurar a cidade dos homens em Cristo, isto é, com as coordenadas fundamentais que desde sempre a Igreja tem defendido: o respeito pela dignidade humana, a procura do bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade para com os mais fracos. Só no diálogo da Igreja com o mundo estes objectivos se conseguirão.

3. Revisitar o Concílio, aceitar as suas propostas, actualizar as suas exigências pastorais, levar à prática o pensamento conciliar constituem um apelo do Papa Francisco ao abrir a Porta Santa em S. Pedro do Vaticano no começo do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O Papa Francisco tem pedido isso constantemente. No âmbito do jubileu é normal receber a misericórdia de Deus e distribui-la em acções de vida marcadas pela caridade. A melhor forma de o concretizar é nas esferas da vida em que nos movemos, na família, no trabalho, no âmbito socioeconómico, nas actividades políticas e na construção da paz. De facto, o Concílio Vaticano II ainda está por cumprir.

4. Nas últimas duas sessões do Concílio, porque estava em Roma, acompanhei de perto toda a reflexão teológica e as incidências pastorais que elas continham. Parecia ter chegado o tempo da renovação profunda da Igreja, perante o mundo que precisava de novos valores. Depois, durante uns 10 anos, outra coisa não fiz senão anunciar o Concílio com as propostas de renovação que ele continha. Infelizmente, as orientações conciliares foram caindo no esquecimento e há uma estranha sensação de regresso ao passado, com tendências espiritualistas que esquecem o mundo a evangelizar. O Papa Francisco, tendo consciência disto, sugere às comunidades cristãs celebrarem o Jubileu da Misericórdia com intenção de renovar-se à luz das grandes perspectivas do Concílio. Seremos, na nossa comunidade paroquial do Campo Grande, capazes disso? O laicado da nossa comunidade estará a viver uma “Igreja em saída” para levar a loucura do Evangelho a todos os lugares? Teremos compreendido que toda a oração, toda a relação sacramental, obriga a ir ao encontro do mundo para o salvar? Foi Jesus que nos fez o desafio: “Ele veio ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo” (Jo 3, 17).

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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