MISERICORDIOSOS COMO O PAI – 18 de Dezembro de 2015

1. Perante os inúmeros problemas que se vivem no mundo actual, os ódios, as violências, as desigualdades, as injustiças, as opressões, sente-se intenso o clamor dos mais pobres, a pedir misericórdia. Dizia recentemente o Cardeal Walter Kasper que a misericórdia é um tema fundamental para o século XXI. Parecia que este milénio seria portador de esperança. Aconteceu precisamente o contrário. Surgiram as crises económicas que foram geradoras de problemas, aconteceram tensões políticas, culturais e até religiosas, acentuaram-se os movimentos migratórios, a partir de tentativas de democratização de alguns povos, aumentaram os refugiados, os sem-abrigo, os marginais, todos excluídos do convívio social. Tendo em conta o estado do mundo actual, torna-se imperioso fazer nascer a misericórdia nas pessoas, nas estruturas, nas instituições. Infelizmente a misericórdia é um tema imperdoavelmente esquecido. Acresce o facto de a misericórdia estar sob suspeita nas ideologias, quando a identificam de maneira redutora, quando lhe chamam “caridadezinha”. É urgente criar no mundo mecanismos de empatia que aproximem as pessoas, e atitudes de compaixão que permitam fazer seus os problemas dos outros para os resolver. O Jubileu da Misericórdia no seu “ícone” faz um apelo, ao dizer “misericordiosos como o Pai”. O logotipo tem um design sugestivo, lembrando o Bom Samaritano: um Pai (Deus) que leva aos ombros um homem (todos os homens). E todos os cristãos devem ser misericordiosos como o Pai. 

. O Pai acolhe todos os humanos. O acolhimento é a primeira atitude dos cristãos. Como diz Paulo VI: o testemunho cristão consiste em acolher e compreender todos os homens e ser solidário com os mais pobres (EN 21). 

. O Pai ama todos os filhos sem distinção. O amor é a marca dos cristãos. Pelo amor tornam-se de verdade irmãos uns dos outros e decidem dar ajuda a quem dela venha a necessitar. 

. O Pai perdoa a todos sem distinção. Na parábola do Pródigo aparece um desafio constante à universalidade do perdão. Perdoa-se ao filho mais novo que tudo dissipou, revelando este pai uma capacidade enorme de carinho. Perdoa-se também ao filho mais velho que nunca aceitou o irmão, na esperança de que também ele aceite a ternura do pai. 

. O Pai vai ao encontro do filho que se perdeu. O cristão não tem descanso enquanto não leva aos outros mensagens de reconciliação como fonte de felicidade. Procura sempre formas positivas de os recuperar para uma vida nova. 

. O Pai quer ver os filhos felizes. Faz, então, tudo para saber o que eles desejam. Os cristãos, com discernimento também tentarão responder a tudo aquilo que os outros que estão à sua volta precisam. Assim todos poderão sentir-se bem.

Ser misericordioso como o Pai é um desejo extraordinário feito a todos os cristãos a fim de viverem com a maior intimidade em comunhão na misericórdia e na ternura.

2. De uma forma muito clara, o Papa Francisco convida a viver as obras de misericórdia. De facto, na catequese tradicional, aprenderam-se as obras de misericórdia corporais e espirituais. O Papa, agora, deu-lhes uma formulação diferente, com expressões muito belas. Foi grande a sua preocupação em tornar acessível a proposta de misericórdia no concreto da vida. Quais são então as obras de misericórdia corporal? Francisco enumera-as assim:

. Dar de comer aos famintos – há muitas famílias, bem perto de nós, que não têm pão para dar aos filhos! É tempo de repartir o pão de cada dia. 

. Dar de beber aos sedentos – há falta da água no planeta dos homens. Mas grande número tem sede de justiça, de misericórdia, de amor. É tempo de no mundo que está próximo satisfazer estas sedes. 

.Vestir os nus – durante as noites de Inverno, há homens e mulheres a dormir debaixo das pontes, há crianças que tremem de frio. Repartir os muitos agasalhos que estão guardados é misericórdia. 

. Acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos e visitar os presos – estas são tarefas ingentes dos voluntários cristãos que descobrem “gente que precisa de gente” e vão ao seu encontro para lhes aliviar o sofrimento. 

. Enterrar os mortos – parece uma estranha obra de misericórdia. No mundo actual, porém, há quem morra abandonado de todos, sem ninguém. Depois, há famílias em luto, à espera de um conforto. Tudo isto é, certamente, obras de amor.

Multiplicar as obras de misericórdia corporal é uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida, perante o drama da pobreza. É, também, entrar no coração do Evangelho onde os pobres são privilegiados pela misericórdia divina (cf Bula JM).

3. As obras de misericórdia espiritual são talvez as mais esquecidas, até pela dificuldade de as levar à prática. A relação de proximidade com pessoas que têm problemas nem sempre é fácil. O Papa Francisco formulou estas obras de misericórdia espiritual de uma maneira diferente, certamente mais fácil para a cultura actual. Quais são, então, estas obras de misericórdia? 

. Aconselhar os indecisos. Na complexidade das decisões a tomar, é fundamental o discernimento. Na hora de escolher, há pessoas que hesitam e é bom haver alguém que aconselhe. 

. Ensinar os ignorantes. Não se trata de dar lições de alfabetização. Propõe-se ajudar as pessoas a conhecer a realidade para, a partir dela, construir a felicidade. Propor e oferecer a felicidade aos outros. 

. Consolar os aflitos. Quando as crises desorganizam a vida das famílias e das empresas, as pessoas ficam aflitas com o que pode acontecer-lhes. O mesmo sucede quando surge a doença, o desemprego, a exclusão, tudo o que gera angústia. Ser conforto nas horas difíceis é misericórdia. 

. Admoestar os pecadores, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas incómodas. Esta foi a maneira que o Papa Francisco encontrou para falar da dificuldade nas relações humanas. É mesmo necessário vencer os egoísmos, mas também esquecer as ofensas e aceitar os “aborrecidos”. São caminhos abertos à reconciliação, à ternura e à misericórdia. 

. Rezar pelos vivos e pelos mortos. A última obra de misericórdia espiritual é a oração, mas a oração pelos outros. Habitualmente cada um reza pelos seus interesses. Esta obra de misericórdia pede para se rezar pelos outros, vivos ou defuntos. Ficar-se-á em comunhão com todos a quem se quer bem e que, com a oração de outros, serão mais felizes.

Repensar as obras de misericórdia é um apelo muito forte do Papa, feito a todos os que querem fazer do Jubileu um tempo de conversão pela misericórdia e para a misericórdia. Não basta, porém, reflectir: é fundamental amar. As linhas de acção estão dadas.

4. Na nossa comunidade paroquial do Campo Grande está a viver-se o Jubileu da Misericórdia. A melhor forma de o fazer neste tempo de Natal será pegar nas obras de misericórdia corporal e espiritual e levar à prática tudo o que a partir dos valores do Evangelho se torna viver o amor e a misericórdia.

Para todos um Bom Natal de Misericórdia.

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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