A CAMINHO DA SANTIDADE -10 de Janeiro de 2016

1. Uma das páginas mais surpreendentes do Concílio Vaticano II é aquela em que na Lumen Gentium se afirma a vocação universal à santidade. Até aí parece que a santidade era o privilégio apenas de alguns. Para ser santo era preciso viver de costas para o mundo, entrar num convento, viver numa austeridade de invulgar rigor, pretendendo com tudo isto atingir a perfeição. Por outro lado, os Santos eram poucos, uma vez que apenas alguns eram reconhecidos pela Igreja como santos de verdade. Veio o Concílio Vaticano II e, logo na Constituição sobre a Igreja, afirma-se com toda a clareza que todos são chamados à santidade, isto é, a serem santos como Deus é santo. Cristo amava a santidade de vida, convidando todos a serem perfeitos como o Pai do Céu é perfeito (cf Mt 5, 48). A Igreja afirmará depois que a perfeição na santidade está em seguir Cristo pobre, humilde e levando a cruz, como um verdadeiro discípulo. Mas afinal o que é ser santo? Os mestres da espiritualidade dizem que é: “viver sempre em plena e perfeita comunhão com Cristo” (LG 40). Definição cheia de beleza. 

. A santidade consiste em viver como Cristo. Identificar-se com a Pessoa de Jesus é mais do que conhecer quem Ele é e em ter com Ele uma constante relação de amor. Se a fé é a adesão à Pessoa de Jesus, então, ultrapassa todos os fundamentos doutrinais, mesmo que encontrados na teologia ou na Bíblia. No jogo dos afectos, a santidade conduz ao amor radical com a Pessoa de Jesus Cristo. 

. A santidade realiza-se na comunhão total com Jesus. A comunhão com Ele conduz à união total. Tudo o que é a Pessoa de Jesus é-me dado, pela generosidade do seu amor. Mas tudo o que eu sou lhe pertence também, uma vez que seguindo-O até ao fim, em todas as circunstâncias, me identifico completamente com Ele. 

. A santidade pede uma comunhão plena e perfeita. A plenitude do amor é aquilo que a santidade provoca. Já Paulo, na Carta aos Gálatas, diz: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”(Gl 2, 20). Este caminho é trinitário, arrasta consigo as Três Pessoas da SS. Trindade: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada”(Jo 14, 23). Paulo acrescentará “não sabeis que sois templo do Espírito Santo que habita em vós?” (1Cor 6, 19). 

. A santidade, vivida nesta comunhão permanente, tem o selo da eternidade. Uma vez que se aceita viver em comunhão com Jesus Cristo, não mais se quer deixar esta forma de viver. O santo está permanentemente “encharcado” da vida de Deus em si.

Todo o cristão é chamado à santidade. Este processo não é, porém, fácil. Jesus afirmou-o claramente “se alguém quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Disse mais: “quem quiser ganhar a vida, acabará por perdê-la, e só quem aceitar perder a sua vida por minha causa, a encontrará” (Mt 16, 21-24).

2. Todas as comunidades cristãs têm santos protectores. São eles o caminho de santidade a viver por todos os cristãos. Às vezes pensa-se que ser santo é impossível. Então, precisam-se de modelos. Os santos padroeiros são uma referência para os cristãos de cada comunidade. Os padroeiros da Paróquia do Campo Grande são os Santos Reis Magos. Como se sabe, a narrativa dos Magos, feita por Mateus no seu Evangelho, outra coisa não é do que uma catequese sobre a universalidade da Redenção e Salvação. Jesus tanto acolhe os pastores que eram as pessoas mais desfavorecidas na cidade de Belém, como acolhe também grandes senhores que são os Magos vindos dos três continentes então conhecidos. Por isso um é preto, o outro branco e o terceiro moreno. Vieram da Europa, da África e da Ásia. Agora, esta catequese tem grandes lições que se aplicam à vida da nossa comunidade paroquial. 

.Todas as pessoas que recorrem à comunidade paroquial, sejam quem forem, são chamadas à salvação. Por isso devem ser acolhidas e ajudadas em tudo o que precisem. 

. Todas seguem uma estrela e essa estrela é Jesus Cristo. Seguir o Senhor, ser seu discípulo, é o grande objectivo do ser cristão. N’Ele se alicerça a fé e por Ele chegamos aos outros na caridade. 

. Como aconteceu aos Magos no encontro com Herodes, compreende-se que há forças adversas à fé cristã. Então, é essencial discernir sobre o que é bom e o que é mau. Ter uma consciência esclarecida é próprio do cristão que o é de verdade. 

. É preciso também saber ir por outros caminhos. O cristão não segue os critérios do mundo, o ter, o poder e o prazer. O cristão segue o caminho da verdade, da justiça, da liberdade e do amor. A sua cidadania converge para a paz na relação com Deus e com os irmãos.

Esta alegoria dos Reis Magos é de um realismo extraordinário. Não tem idade, porque se aplica à vida em qualquer idade, em todos os tempos. Os padroeiros da comunidade cristã são protectores a quem pode recorrer-se, mas são sobretudo modelos a quem vale a pena seguir. Esta é a lição dos Magos.

3. Quando se fala de santidade, o que está em questão não é apenas o caminho espiritual de cada pessoa; deve ter-se em conta também a santidade das várias comunidades cristãs em que estas pessoas se inserem. De facto, a própria Igreja Universal é una, santa, católica e apostólica. O ser santo implica que sejam santas todas as estruturas da comunidade, tenham como referência os valores que Jesus proclamou, se tornem de verdade comunidades de alegria, de amor e de paz. É assim também na vida da Comunidade Paroquial do Campo Grande. 

. A santidade na profecia reclama o amor constante a Jesus Cristo, em todos os campos de formação e aprofundamento da fé. 

. A santidade na liturgia refere necessariamente o que diz o Concílio Vaticano II: a liturgia é o exercício da função sacerdotal de Cristo (SC 7). A sua referência é sempre a Pessoa de Jesus.  .

. A santidade na prática da caridade supõe ir ao encontro dos mais pobres, dos que mais sofrem e ver neles a presença de Jesus Cristo: “o que fizeres ao mais pequenino dos meus irmãos é a Mim que o fazes” (Mt 25, 40).

. A santidade na vida comunitária permite compreender que se é santo quando todos são um como o Pai e Cristo são um só. A comunhão e a unidade definem o caminho à santidade verdadeira.

A comunidade cristã é, também ela, fonte de santidade, lugar onde se aprende a seguir Jesus Cristo e onde se ensaiam o caminho, a verdade e a vida que Jesus Cristo é (Jo 14,6).
Que os Santos Reis Magos nos ajudem a crescer na santidade.

Pe. Vítor Feytor Pinto - Prior

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