XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 27 de Junho de 2010

“TOMOU A DECISÃO DE SE DIRIGIR A JERUSALÉM E MANDOU MENSAGEIROS À SUA FRENTE, (…). PELO CAMINHO, ALGUÉM DISSE A JESUS: «SEGUIR-TE-EI PARA ONDE QUER QUE FORES»”. 

(Lc 9, 51. 57)

I LEITURA – 1 Reis 19, 16b. 19-21

A vocação de Eliseu

SALMO – 15 (16), 1-2a. 5. 7-8. 9-10. 11 (R. cf. 5a)

Refrão: O Senhor é a minha herança

II LEITURA – Gal 5, 1. 13-18

A libertação em Cristo

EVANGELHO – Lc 9, 51-62

Exigência e serenidade

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XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

          Os mitos e as religiões antigas achavam natural que Deus ou os deuses tratassem os homens como servos. Os reis e os poderosos da Terra mandavam quanto podiam, e Deus, ou os deuses, estavam acima de todos! Os mitos e as religiões antigas também sabiam que aquilo que os senhores querem dos servos é que obedeçam sempre, e pensem pouco.

          O Antigo Testamento ainda cede às vezes a esta tendência. Mas Jesus ensinou-nos que devemos tratar Deus como Pai. É verdade que obedecemos aos pais, mas por amor, não por medo.

          S. Paulo escreve a Epístola aos Gálatas na sequência dum conflito. Tinha ensinado que os pagãos convertidos ao cristianismo estavam isentos dos costumes dos judeus, nomeadamente da circuncisão. Ora em todas épocas houve na Igreja grupos de extrema direita, para quem amar a Deus é cumprir prescrições, quanto mais aborrecidas ou humilhantes, melhor. Gentes desses grupos andam na peugada de S. Paulo, aparecendo nas comunidades quando ele terminou a sua pregação e passou a outra terra: tentam convencer os novos cristãos de que S. Paulo é um falso Apóstolo porque não respeita à letra o Antigo Testamento, afirmam que nenhum homem pode entrar no céu se não for circuncidado.

          Nesta Epístola, S. Paulo começa por apresentar as suas credenciais. Era, também, um judeu integrista, tanto que perseguia os cristãos; mas o Senhor Jesus apareceu-lhe na estrada de Damasco e revelou-lhe o Evangelho. Tendo-se convertido, começou a anunciar Jesus Cristo. Encontrou-se com Pedro e com os outros Apóstolos, que “lhe deram a mão, em sinal de comunhão”, combinando que Paulo e Barnabé ficavam encarregados da pregação aos pagãos, enquanto eles pregavam aos judeus. (Gal 1,1-2,14).

          A seguir, defende uma doutrina que desenvolverá na Epístola aos Romanos: a nossa relação com Deus não se faz na base do pagamento de portagens, faz-se com base no amor. E o amor começa na fé. Imaginar que se é salvo porque se cumpriu meia dúzia, ou muitas dúzias, de preceitos é reduzir a relação com Deus à antiga servidão. Claro que importa ser fiel. Mas é errado imaginar que Deus “prova” a nossa fidelidade vendo se cumprimos ou deixamos de cumprir meros regulamentos, em si mesmos alheios ao amor. ”O homem não é tornado justo pelo cumprimento das obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo.” Recorda, a propósito, certas atitudes consideradas correctas pelos judeus e declaras injustas pelo Evangelho: acreditar que os judeus valem mais que os pagãos, os bem colocados na vida valem mais que os marginais, os homens valem mais que as mulheres. (Gal 2,15-4,31).

          Finalmente, alarga a argumentação. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.” (Gal 5,1). Explica, claro, que a liberdade não é faculdade da extravagância e da libertinagem. Se me é lícito usar a linguagem das filosofias do séc. XX, explicarei S. Paulo dizendo que a liberdade é o poder, que participo de Deus, de pegar na vida para fazer nela aquilo que vejo que é o bem. E assim fazer da via a minha vida.

         Em certas épocas imaginou-se que um ser é tanto mais livre quanto mais isento de ligações. Mas parece óbvio que, para ser capaz de construir a minha vida, preciso de ter encontrado amor e amizade, um trabalho que me interesse, o respeito dos que estão à minha roda. S. Paulo diz que aquele que vive na verdadeira liberdade encontra “os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio.” (Gal 5,22-23). Como ainda não está no Céu, terá, às vezes, de lutar contra as paixões.

P.e João Resina Rodrigues (in a Palavra no Tempo II)

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